observar a cidade e deixar que ela também te veja

observar a cidade e deixar que ela também te veja

Naquela tarde nublada, o tempo parecia dizer que caminhar era a melhor escolha a ser feita. Sim, colocar uma roupa leve, sair de casa e não pensar muito sobre os afazeres ou as obrigações da semana, pelo menos por algumas horas.

Coloquei o sapato mais confortável que eu tenho, pensando em explorar um território que há meses não podia contemplar: a cidade em que vivo. Olha, aquele lugar é novo? Caramba, eu nunca tinha prestado atenção naquela esquina. Aqui não tinha um banquinho?

Foi então que, na rua, as avistei e percebi que elas haviam decidido o mesmo que eu para aquele dia. Estavam simplesmente andando por aí, conversando, deixando a cidade transbordar por entre os olhos e os passos.

Fazia tempo que eu não separava alguns minutos pra observar a cidade e prestar atenção na rua. Entre os prédios e as árvores, as inconstâncias e rachaduras do tempo-espaço, ainda havia tanto para ser visto abaixo das nuvens vestidas de chuva. Levar as pernas para passear é como reunir o afeto do olhar, em busca de registrar encanto, com a curiosidade dos pés.

Por meio da realidade, também é possível escrever outras narrativas, e é quando saímos de casa que podemos apreciar os detalhes do acaso. Eu sempre me surpreendo com o quanto sair para caminhar é algo que pode mudar a nossa perspectiva sobre o dia, o presente e o que achamos conhecer. É feito um rito de passagem para o desconhecido que mora logo ali e, às vezes, não conseguimos perceber.

Eu gosto de pensar que sair de casa para caminhar e observar a cidade se parece com o momento de tomar banho em um rio. Após mergulhar, sempre há algo que muda dentro de nós. E isso nos faz ver a vida pela fluidez de outras águas também.

Qual foi a última vez que você se permitiu sair de casa sem um compromisso específico para além do desejo de ver a cidade em que mora e, assim, observar os arredores? Fazer isso, além de gerar mais leveza para os dias, é uma ótima forma de plantar sementes de imaginação e criatividade pelo caminho.

pequeno mapa do tempo

pequeno mapa do tempo

Depois de uma breve pausa, em que meu corpo me obrigou a parar um pouco por questões de saúde, tenho tentado reencontrar o que pode trazer mais sentido à minha rotina e, assim, eu resolvi mexer em algumas gavetas de memórias.

Às vezes, é comum ter dúvidas sobre quem somos ou o que mais gostamos de fazer: se perder faz parte da vida de quem gosta de explorar, descobrir coisas novas e criar. Nessa parte do caminho, nada melhor que um mapa pra orientar os próximos passos.

Por mais que você possa ter deixado de lado alguns dos seus hobbies, o que faz seu coração bater com mais alegria ou o que pode trazer mais leveza aos seus dias, provavelmente você lembra do que gostava de fazer quando era criança.

Quais hábitos a sua mini versão costumava colocar em prática no dia a dia? São aquelas coisinhas que a gente vai praticando diariamente que nos levam pra outros caminhos em nossa história, mesmo que isso às vezes passe despercebido.

O que faz parte da nossa essência não é somente o que demonstramos ser hoje nem o que almejamos para o futuro, mas principalmente a construção de tudo o que poderíamos ser, que começou a ser realizada lá na infância.

Tem dia que o medo de não conseguir fazer algo nos paralisa, mas podemos ter um pequeno mapa do tempo, nos guiando para onde ir, se olharmos para a nossa criança interior.

de volta ao quintal

Nos últimos dias da semana, tiveram vários dias de chuva, aqui em Fortaleza, e olhar esses pingos d’água dançando com o vento me leva de volta ao quintal de uma casa que marcou a minha infância.

Aquele quintal era o maior espaço da casa. Por lá, eu e meu sobrinho podíamos correr e tomar banho de chuva como se não houvesse mais nada acontecendo no mundo. Era como congelar o tempo.

Naquela época, a produtividade do dia era medida pelo número de risadas, tipos de brincadeiras, quantidade de passos dados, guloseimas compartilhadas, desenhos assistidos e novos aprendizados.

Certa vez, um amigo me disse que cada pessoa era como uma casa e que, ao se apresentar para outras, ela poderia decidir quais cômodos mostraria de acordo com a conexão. Penso que as coisas que remetem a quem realmente somos se encontram em nosso quintal.

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.

Manoel de Barros

viagem no tempo

Longe de ser apenas uma forma de ter nostalgia ao visitar o nosso passado, olhar com carinho para a criança que fomos é traçar percursos possíveis de sonhar, ser quem somos, viver e continuar aprendendo mais sobre o que pode servir como um potente combustível interior.

Já imaginou explorar um mapa do seu passado-presente-futuro e, com isso, descobrir mais sobre você e o que faz sentido estar na sua vida? Então vale pensar em quais coisas mais despertavam a sua curiosidade, o que fazia você passar horas com foco, o que te dava mais energia ou mais cansaço, e o que fazia o dia ser mais especial.

Aqueles sonhos ou habilidades que foram esquecidos, com o passar do tempo, podem reaparecer. Caso você não consiga lembrar de muita coisa, também pode perguntar para quem convivia com você.

Você tem uma gaveta, caixa ou pasta de memórias? Te convido a separar um tempo para revisitar esse lugar. Pequenos objetos podem contar histórias ao longo dos anos, mudando algumas perspectivas e nos ajudando a encontrar outras rotas com mais coragem.

Por aqui pretendo fazer mais caixas de recordações para guardar além dos registros fotográficos e, assim, desenhar possíveis trajetos para o futuro. E aí, que tal organizar o seu próprio pequeno mapa do tempo?

Obrigada por me acompanhar. Até logo mais!

uma nova perspectiva

uma nova perspectiva

Hoje o dia amanheceu chuvoso aqui em Fortaleza, no Ceará, deixando um clima bem gostoso logo pela manhã. Meus gatinhos, Bento e Tulipa, também aproveitaram para descansar e olhar as gotinhas de chuva pela janela.

Amo observar a forma como eles contemplam os detalhes do tempo de uma forma diferente a cada dia, e resolvi fotografar para começar esse 2022 com a ideia de ter mais memórias visuais na rotina, sem esperar por momentos de comemoração ou datas especiais.

As semanas que antecederam o ano que chegou, e principalmente o último dia de 2021, foram cheios de imprevistos que me drenaram bastante, e infelizmente eu não tenho nenhum registro da noite de “rei leão” aqui em casa, mas graças a Deus ficou tudo bem e consegui aproveitar o jantar com minha família.

Por mais que a gente planeje alguns detalhes, sempre podem ocorrer situações inesperadas e o que resta é a tentativa de se adaptar às mudanças, se conectar com o que mais importa, acolher os nossos sentimentos, entender o que não podemos mudar ao redor e refletir sobre o que pode ser transformado em nosso interior, sendo mais gentis conosco e com os nossos processos. Como diz a música Ninguém vive por mim, de Sérgio Sampaio, “o pior dos temporais aduba o jardim”.

Apesar de gostar muito de planejar o ano, os meses e as semanas, um dos aprendizados da junção de 2020 e 2021 é que não há como ter controle sobre coisa alguma e, na tentativa de reduzir a ansiedade, é preciso largar a mão do perfeccionismo e fazer o melhor que eu posso com as condições que tenho atualmente. Pretendo exercitar isso com mais afinco nesse ano para tirar algumas ideias do papel, e sou muito grata por ter esse espaço tão querido para compartilhar minhas coisas por aqui.

Desejo mais leveza e coragem para seguir o fluxo desse ano de 2022. Que possamos seguir com nossas lutas sem esquecer dos nossos sonhos e momentos de respiro. Um feliz ano novo, com novas histórias e dias melhores!

Fica bem! Abraço ❤

pequenezas do dia a dia

pequenezas do dia a dia

Aqui onde moro com a minha família é possível ver bem apenas o nascer do sol, preenchendo as madrugadas de insônia com o lembrete de que um novo dia está chegando com outras cores e perspectivas.

Porém, perto do final do ano, o entardecer resolve se revelar mais também: pequenos vestígios do pôr do sol invadem as frestas da janela da cozinha, pintando o piso e os azulejos da parede todos de dourado por breves minutos. Tudo ganha uma outra cor, a pele, o fogão, a louça, e é quase como se virasse um novo lugar por um instante.

Um espaço-tempo que se despede quase da mesma forma que surge. De repente. Captar os desenhos de luz e sombra, exercitando um olhar mais atento para o presente, é abraçar a efemeridade das pequenezas que não podem passar despercebidas, como uma oração ao tempo. João Guimarães Rosa já dizia, “Deus está nos detalhes”.

Usar a câmera analógica tem me ajudado bastante a dar mais importância às pequenezas do cotidiano, por funcionar no caminho inverso à pressa das horas, e meu coração sempre bate mais feliz quando começo um novo filme (e especialmente quando o envio para revelar os registros).

Essas imagens foram feitas na Olympus Trip 35, com o filme P&B Praça do Ferreira, do @lab8oito, e a revelação e digitalização também foram feitas nesse mesmo laboratório.

Quais são as pequenas que têm deixado a sua rotina mais bonita? Quando a gente se permite ver para além do enxergar, novos detalhes e cores se mostram. Obrigada por me acompanhar por aqui!

Até logo, e se cuida.

saudade pixelada

registro saudoso de janeiro de 2020, antes da pandemia

Entre tantas incertezas desses últimos meses, algo não deixa de brotar dentro do peito: a saudade do mar e de ficar mais pertinho da natureza. Sentar na areia pra admirar as ondas quebrando, enquanto o cabelo dança ao som do vento, é uma falta que tenho sentido mais a cada dia.

E então, revelar o filme da câmera analógica (que estava guardado há mais de um ano), com a Lab 8, e receber esses registros por e-mail foi como ganhar pequenos pixels de esperança em uma tarde – de lockdown – de domingo.

[para fazer essas fotos, usei a Olympus Trip 35 e o filme Kodak ColorPlus 200, na praia de Ponta Grossa, em Icapuí (CE)]:

essa foto me trouxe uma sensação tão boa: deu até pra ouvir o barulhinho que a água faz quando a gente caminha na beira do mar <3
além do mar e do meio do mato, minha outra maior saudade também tem nome: Rodrigo :’)
tentei registrar um dos casais que passou o ano novo de 2020 com a gente, Vitória e Txai
eu ainda não conhecia Icapuí, mas as paisagens naturais e cores de lá são algumas das mais lindas que já pude ver
lembranças de um dia bom (não sei descrever a emoção e o quentinho no coração que senti ao ver essas imagens)
finzinho de tarde ou aquela hora que o céu se pinta de mar e os dois bailam uma valsa até o escurecer

Tenho tentado trazer à memória o que me dá esperança, e as imagens e palavras estão me ajudando com isso. :’) Contar histórias e relembrar as singelezas da vida são algumas das preciosidades mais lindas que a fotografia faz, e isso me inspira a buscar a beleza do passar do tempo e fazer mais registros. Prometo tentar e compartilhá-los por aqui.

Agora, pra finalizar esse post, deixo uma poesia de Cecília Meireles. Espero que esses versos lhe toquem, com ternura, também.

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos, 
limitados em chorar?

Não encontro caminhos
fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.

E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança em cada lugar.

Rastro de flor e de estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

Obrigada, de verdade, pela sua companhia. Se cuida e até logo!