entre o vivido e o imaginado, uma leitura de “é sempre a hora da nossa morte amém”

entre o vivido e o imaginado, uma leitura de “é sempre a hora da nossa morte amém”

O que está guardado na sua memória ainda faria algum sentido se você fosse falar para outras pessoas que não estavam presentes nos momentos mais importantes da sua vida?

Ao participar do clube do livro @chicasedicas, tive a oportunidade de ler pela primeira vez uma obra da Mariana Salomão Carrara, o “é sempre a hora da nossa morte amém” (e, com isso, já fiquei com muita vontade de ler também o seu primeiro romance, “se deus me chamar não vou“).

“Agora e na hora de nossa morte amém, que hora era essa, a hora de nossa morte, como se fôssemos morrer em apenas um momento, estávamos morrendo ali já mesmo enquanto eles rezavam, com o detalhe de que por sorte neste preciso momento o corpo venceu, agora venceu de novo, e venceu agora também, até que de repente não”.

É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara. Editora NÓS, 2021.

Por meio de malabarismos com as palavras, metáforas maravilhosas, histórias que ficam entre memória e ficção, e passagens que causam reflexões sobre família, amizade, relacionamento amoroso, saúde, mãe-filha e até sobre o país em que vivemos, a ditadura e as incoerências, e as coisas cotidianas, o livro é cheio de capítulos curtos e ao mesmo tempo densos de ler.

A leitura é divertida e tão fluida que não há a necessidade de uma pontuação tão dentro dos padrões da língua portuguesa, funcionando como uma conversa mais íntima, mas o que fica nas entrelinhas pode fazer você voltar duas ou mais vezes para conferir, reler, ou pensar mais um pouco.

Entre neuroses e lembranças, que se mesclam ao medo da morte, à vontade de viver e amar e aos complementos da imaginação, o livro de Mariana conversa bastante sobre o que levamos da vida e, principalmente, sobre a finitude desta e a efemeridade dos nossos afetos.

“Não sei muito sobre o que me tornei, mas é certo que sou uma pessoa que tem sonhos de vida enquadráveis em pequenas imagens precisas, eu seria totalmente feliz se alcançasse ao menos um dos meus quadros de perfeição, mas sempre algum detalhe me escapa”.

Cada capítulo constrói cenários cheios de imagens, que ficam em nossa mente mesmo depois da leitura: o que é verdade ou mentira dá lugar a pensamentos mais profundos que vão para além das palavras escritas.

Os tantos universos possíveis entre passado, presente e futuro da Aurora e das Camilas são como um horizonte que vai se desenhando de novo, e de novo, a cada nova história contada, como uma ilha de edição (já dizia Waly Salomão).

Além de frases muito marcantes, a história une sensibilidade, memória, imaginação e afeto de uma forma tão única que você pode se pegar rindo, chorando, se identificando com a autora e as personagens e tendo vontade de conversar sobre a leitura com alguém.

Apesar de que uma das únicas certezas que temos quando estamos vivos é que, em algum momento, será a hora da nossa morte, falar sobre esse assunto normalmente gera uma sensação de insegurança, né?

Afinal, “todo o corpo fica permanentemente combatendo nossa tendência a morrer, a vida em si é que é surpreendente”, mas achei muito interessante a forma como a autora criou tantas narrativas, de um jeito até engraçado em algumas situações, sobre algo que é tão difícil de falar.

Separar um tempo para ler, participar de um clube de leitura e conversar sobre narrativas, autoras e personagens, tem sido uma das melhores partes da minha rotina nos últimos meses.

Agora queria perguntar uma coisa: o que você tem lido por aí? Espero que você consiga encontrar espaços e outras perspectivas de pensar sobre a vida, os seus afetos e a sua finitude por meio das palavras. Até logo!