estrela azul, uma leitura de “Só garotos”, de Patti Smith

estrela azul, uma leitura de “Só garotos”, de Patti Smith

Será que é possível viver de arte e respirar como se tudo fosse um sonho prestes a se revelar? Ser artista é criar algo que ninguém pode ver? À procura de si e do universo que ainda queria conhecer, Patti Smith nos presenteou com a escrita poética e honesta de Só garotos.

Nessa obra, ela relatou o seu encontro com Robert Mapplethorpe, com quem dividiu a vida, o teto, a ternura, os sonhos, a voz e tudo o que carregava de mais profundo em seu interior.

Comecei a ler o livro por ter sido uma proposta de leitura do mês do clube #LCentreestantes e, logo nas primeiras páginas, me apaixonei completamente. Sem dúvidas, ele se tornou um dos meus livros preferidos e, por isso, pretendo ler mais outras vezes.

Ainda não havia lido nada de Patti e foi uma experiência tão transformadora que fiquei me perguntando o porquê de ter demorado tanto, mas acredito que aconteceu exatamente no tempo certo.

a estrela azul

A escrita da obra autobiográfica foi uma promessa que Patti fez a Robert, pouco antes dele morrer. Diante de suas memórias afetivas, a artista reuniu imagens, retratos, poesias, referências de vários artistas incríveis, músicas e bilhetes realmente inspiradores para além do espaço-tempo.

Com isso, ela conseguiu contar a história de sua vida, do seu encontro e relacionamento com Robert – que a salvou de várias formas, do seu amor pela arte e dos percalços que percorreu para conquistar os seus sonhos, dos meados dos anos 60 e 70 em Nova York e, especialmente, da estrela azul:

“Saímos para caminhar à noite. Às vezes conseguíamos enxergar Vênus acima de nós. Era a estrela dos pastores e a estrela do amor. Robert a chamara de nossa estrela azul. Ele costumava fazer o t de Robert como uma estrela, assinando em azul para eu me lembrar.”

Só Garotos, de Patti Smith. Companhia das Letras, 2010.

só garotos

A escrita de Patti é tão linda, que é até desafiador falar sobre o livro. Por meio da leitura, é possível se encantar com a visão de mundo da autora e o universo que ela compartilhou com Robert, as transformações que eles passaram e suas lutas internas e externas.

É emocionante e inspirador perceber tudo o que eles queriam ser e viver, e o quanto eles foram vários ao longo de sua jornada pessoal, afetiva e artística.

Cada capítulo dessa obra, pra mim, foi como uma vela que você acende para perfumar e aquecer todo o espaço, deixando aquela sensação boa de nostalgia, conexão, afeto e harmonia.

“Em um dia de veranico vestimos nossas roupas favoritas, eu com minha sandália beatnik e uma velha echarpe, e Robert com suas amadas miçangas e o colete de ovelha. Pegamos o metrô até a West Fourth Street e passamos a tarde na Washington Square. Tomamos café de uma garrafa térmica, vendo grupos de turistas, gente chapada e cantores de folk. Revolucionários agitados distribuíam panfletos contra a guerra. Enxadristas atraíam uma multidão à parte. Todos coexistiam naquele zum-zum de diatribes verbais, bongôs e cachorros latindo.
Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho.
‘Oh tire uma foto deles’, disse a mulher para o marido distraído, ‘acho que são artistas’.
‘Ora, vamos logo’, ele deu de ombros. ‘São só garotos‘.”

Só Garotos, de Patti Smith. Companhia das Letras, 2010.

Patti e Robert

Entre tantas palavras imagéticas, a leitura nos leva a diversos cenários: bares, trabalhos, exposições e, principalmente, ao Hotel Chelsea (que é praticamente uma personagem da história, e é um ponto de virada na vida de Patti e Robert).

Além do processo de se encontrar e expor a sua voz no universo artístico, a obra também revela a caminhada deles no início de sua vida adulta, abordando diversas temáticas, entre elas: solidão, liberdade, medo, incerteza, paixão, amizade, fé, sonhos, amor, música, fotografia, arte, literatura, rock, fama, propósito, dor e vida.

A conexão que tive com o livro foi tão grande que, ao perceber que já estava pertinho das últimas páginas, deixei ele de lado por um tempo ao lado da minha cama, como quem quisesse adiar a despedida por mais uns dias.

Eu me emocionei do início ao fim e me sinto extremamente grata por ter lido essa obra de Patti, em que muitas memórias foram retiradas do diário que ela escrevia com atenção e sensibilidade.

Se conselho valer pra alguma coisa, te aconselho a ler Só Garotos e se encantar com os detalhes preciosos que ele carrega em cada palavra e registro.

Obrigada por me acompanhar aqui! Abraços e até a próxima 💖

entre o vivido e o imaginado, uma leitura de “é sempre a hora da nossa morte amém”

entre o vivido e o imaginado, uma leitura de “é sempre a hora da nossa morte amém”

O que está guardado na sua memória ainda faria algum sentido se você fosse falar para outras pessoas que não estavam presentes nos momentos mais importantes da sua vida?

Ao participar do clube do livro @chicasedicas, tive a oportunidade de ler pela primeira vez uma obra da Mariana Salomão Carrara, o “é sempre a hora da nossa morte amém” (e, com isso, já fiquei com muita vontade de ler também o seu primeiro romance, “se deus me chamar não vou“).

“Agora e na hora de nossa morte amém, que hora era essa, a hora de nossa morte, como se fôssemos morrer em apenas um momento, estávamos morrendo ali já mesmo enquanto eles rezavam, com o detalhe de que por sorte neste preciso momento o corpo venceu, agora venceu de novo, e venceu agora também, até que de repente não”.

É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara. Editora NÓS, 2021.

Por meio de malabarismos com as palavras, metáforas maravilhosas, histórias que ficam entre memória e ficção, e passagens que causam reflexões sobre família, amizade, relacionamento amoroso, saúde, mãe-filha e até sobre o país em que vivemos, a ditadura e as incoerências, e as coisas cotidianas, o livro é cheio de capítulos curtos e ao mesmo tempo densos de ler.

A leitura é divertida e tão fluida que não há a necessidade de uma pontuação tão dentro dos padrões da língua portuguesa, funcionando como uma conversa mais íntima, mas o que fica nas entrelinhas pode fazer você voltar duas ou mais vezes para conferir, reler, ou pensar mais um pouco.

Entre neuroses e lembranças, que se mesclam ao medo da morte, à vontade de viver e amar e aos complementos da imaginação, o livro de Mariana conversa bastante sobre o que levamos da vida e, principalmente, sobre a finitude desta e a efemeridade dos nossos afetos.

“Não sei muito sobre o que me tornei, mas é certo que sou uma pessoa que tem sonhos de vida enquadráveis em pequenas imagens precisas, eu seria totalmente feliz se alcançasse ao menos um dos meus quadros de perfeição, mas sempre algum detalhe me escapa”.

Cada capítulo constrói cenários cheios de imagens, que ficam em nossa mente mesmo depois da leitura: o que é verdade ou mentira dá lugar a pensamentos mais profundos que vão para além das palavras escritas.

Os tantos universos possíveis entre passado, presente e futuro da Aurora e das Camilas são como um horizonte que vai se desenhando de novo, e de novo, a cada nova história contada, como uma ilha de edição (já dizia Waly Salomão).

Além de frases muito marcantes, a história une sensibilidade, memória, imaginação e afeto de uma forma tão única que você pode se pegar rindo, chorando, se identificando com a autora e as personagens e tendo vontade de conversar sobre a leitura com alguém.

Apesar de que uma das únicas certezas que temos quando estamos vivos é que, em algum momento, será a hora da nossa morte, falar sobre esse assunto normalmente gera uma sensação de insegurança, né?

Afinal, “todo o corpo fica permanentemente combatendo nossa tendência a morrer, a vida em si é que é surpreendente”, mas achei muito interessante a forma como a autora criou tantas narrativas, de um jeito até engraçado em algumas situações, sobre algo que é tão difícil de falar.

Separar um tempo para ler, participar de um clube de leitura e conversar sobre narrativas, autoras e personagens, tem sido uma das melhores partes da minha rotina nos últimos meses.

Agora queria perguntar uma coisa: o que você tem lido por aí? Espero que você consiga encontrar espaços e outras perspectivas de pensar sobre a vida, os seus afetos e a sua finitude por meio das palavras. Até logo!

a busca pela identidade no entre-lugar, uma leitura de Persépolis

a busca pela identidade no entre-lugar, uma leitura de Persépolis

Quem aí já se sentiu não pertencente a algum grupo, em busca de mais autoconhecimento, com crise de identidade ou até frustrado por não conseguir se encaixar em algum lugar? Persépolis, uma obra extremamente sensível e honesta de Marjane Satrapi fala, entre tantas temáticas, especialmente sobre a dificuldade de se encontrar em meio a lacunas de espaço, tempo, memórias, política e cultura. Esse livro é uma história em quadrinhos autobiográfica da autora e ilustradora, abordando momentos desde a sua infância à vida adulta, durante e após a Revolução Islâmica.

Ler essa HQ foi uma oportunidade de acessar uma mistura de emoções a cada página e, principalmente, de perceber o quão pouco é o meu conhecimento sobre o Irã, a sua história e a vida por lá. Apesar da realidade contada pelo livro ser diferente em vários aspectos da que é mais conhecida no Brasil, é possível observar diversas semelhanças no que diz respeito a injustiças contra mulheres, autoritarismo no governo, extremismo religioso, opressão e falta de boas perspectivas para a educação, entre outros.

Ao longo da história, comecei a me sentir bastante assustada no sentido de pensar como tanta coisa ruim pode acontecer daquela forma e, ao mesmo tempo, pensar que aquilo aconteceu há alguns anos atrás, mas que ainda ocorre em diversas camadas, como se o medo de tanto regresso e opressão não pudesse passar.

O que Marjane experienciou da infância à vida adulta, sua mãe e sua avó passaram durante a vida inteira, assim como hoje diversas outras mulheres continuam vivenciando. Por mais que algumas lembranças sejam vestidas de traumas e dores, não deixar o passado se apagar ou ser negado é um meio de não imergir, fortalecer a história individual e coletiva e, dessa forma, expandir as possibilidades de construir um cenário diferente.

Em 2020, a obra completou 20 anos de existência, sendo a primeira publicação em quadrinhos feita por uma mulher, que já vendeu milhões de cópias ao redor do mundo, mas não pôde ser publicada nem vendida oficialmente no país em que Marjane nasceu. Por meio das experiências relatadas ao longo de sua autobiografia em graphic novel, é possível se inspirar com a coragem que ela teve de partilhá-las e perceber o convite que ela faz a outras mulheres também contarem suas histórias.

Além de acompanhar a história do Irã em meio a bombardeios, guerras, mortes e injustiças, o seu livro também fala sobre a história da sua vida: da sua criação por uma família politizada de esquerda que tinha muito conhecimento, dos sábios conselhos da sua avó sempre presente, das contradições que ela encontrava no dia a dia, das perdas e ausências, dos momentos de diversão em meio ao caos, das lacunas e angústias geradas por viver em busca de um lugar onde pudesse se encontrar e, principalmente, da sua formação como mulher ao longo dos anos.

Entre diversas temáticas, como autoconhecimento, amadurecimento, família, drogas, relacionamentos amorosos, cultura, guerra, medo, política, amizade, Marjane fala muito sobre superação, força e a liberdade de pensar, de ir e vir, de ser quem você é e de compartilhar sua história com mais outras pessoas.

Fazer a leitura de Persépolis após a eleição de 2018 no Brasil e depois de quase dois anos de pandemia, e encontrar tantas semelhanças com o nosso país (e perceber que muitos diálogos do livro ainda são extremamente válidos até hoje), e ver também que o Talibã tomou novamente o poder no Afeganistão, colocando ainda mais sombras sobre os direitos de diversas mulheres, pra mim, é mais um motivo de refletir que a nossa vida é sempre cercada por política e que entender a história e a memória de quem já passou por essas situações é um caminho para esboçar novas possibilidades, como Marji nos inspira.

Até logo! 🌹