Vale a pena escrever um diário?

Vale a pena escrever um diário?

Qual foi a última vez que você escreveu sobre os seus dias? Por mais que a palavra diário remeta à adolescência ou infância, ele é uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, cura e aprendizado que pode ajudar até na construção da nossa memória e identidade pessoal independente da nossa idade. Entender o que sentimos por meio de palavras é um exercício que, a princípio, parece pode parecer desafiador para alguns e bobo para outros, mas nos aproxima de nós mesmos e gera diversos outros benefícios quando é algo feito com frequência.

Na vida adulta, voltei a escrever diário com mais frequência só a partir do ano passado e pude perceber uma diferença impressionante no modo de organizar meus pensamentos por meio da escrita. Isso porque, muitas vezes, tenho dificuldade em expressar o que realmente estou sentindo, mas ao fazer isso diariamente, utilizando palavras, senti mais facilidade no fluxo de sensações-pensamentos-texto.

É claro que nem sempre consigo seguir a sequência dos dias, porque esqueço em alguns, e em outros acabo deixando pra última hora, mas tento manter uma constância e logo retorno pelo bem que me faz. A escrita sobre os meus dias se torna um lugar em que eu posso falar de forma mais livre, transbordando o que não cabe mais no peito e na cabeça. Isso me ajuda bastante nos momentos de terapia também, pois me faz levar alguns assuntos que merecem ser discutidos de forma mais aprofundada.

Se você tem medo de começar a escrever um diário e parecer que está em um retorno à adolescência, não precisa se preocupar com isso: a nossa escrita tem a ver com o que estamos vivenciando no momento, nossas experiências e nosso repertório e, assim, o que escrevemos reflete o nosso estado presente. Então, sim, vai ser bem diferente do “querido diário”, como a Carol Figueiredo fala em seu podcast, e um lugar único para expressar o que você quiser.

Para começar a escrever um diário depois de adulta — e conseguir manter a constância durante a rotina — é importante ter em mente alguns pontos que fazem toda a diferença nessa jornada, que são:

julgue menos e escreva mais

Achar que não vale a pena escrever um diário por ser algo que remete à adolescência ou infância já é um tipo de julgamento que pode aparecer como barreira para exercitar essa prática. Então em vez de pensar assim, de forma autocrítica, é importante abrir espaço para essa experiência e se permitir escrever com mais fluidez e menos preocupação, afinal, o que você vai escrever não precisa ser visto por outras pessoas.

O diário é um espaço só seu, pode ser escrito do jeito que você preferir, sem importar a caligrafia, o tempo dedicado a esse momento, o número de páginas ou as temáticas abordadas. Em uma aula que assisti um dia desses sobre a importância de escrever diários, da escritora Ana Holanda, vi que um dos maiores medos é não saber por onde começar, mas a autora deu a dica de escrever sobre o que está ao redor: o cheiro que vem da cozinha, o barulho que pode ser ouvido pela janela, os hábitos de quem mora com você, tudo pode ser um motivo para um texto.

deixe o texto fluir

É válido pensar o diário como um momento para fluir pensamentos e emoções, sem regras: a escrita diária não deve ser vista como uma demanda a mais, mas como uma hora de ser livre para colocar no papel (ou em outra mídia que preferir) o que vier à cabeça e ao coração. É uma conversa íntima com você mesma, e não precisa ser perfeita.

Austin Kleon fala que gosta de manter a escrita em diário, porque o ajuda a prestar mais atenção em sua vida, contribui para a sua terrível memória e é um ótimo lugar para ter ideias “ruins”, pelo fato de ser um espaço privado para os seus próprios pensamentos: você é livre para escrever ou rabiscar o que quiser.

tente exercitar a autocompaixão

Às vezes, quando falamos com o nosso interior, podemos ter bastante rigidez ou autocrítica. Eu já deixei de escrever durante um tempo por achar que tudo que eu escrevia era bobo ou sem importância em vez de olhar as coisas como parte de uma jornada para aprender mais e, assim, continuar a nadar tentar. Não é fácil evitar a comparação com outras pessoas ou olhar com mais gentileza para os nosso erros e até para o que conquistamos também, mas vale exercitar isso na escrita.

Então quando for escrever, que tal perceber o jeito que você fala consigo e colocar em prática a autocompaixão? Essa pequena atitude, aos poucos, é transformadora e pode deixar marcas positivas para além do papel. Há um episódio do podcast Autoconsciente (que é um dos que mais amo ouvir, e recomendo muito), que fala sobre a importância de perdoar a si mesmo e ter mais gentileza com seus erros para ter mais saúde mental e física ao longo da vida.

palavra-coração-infinito

releia o que você escreveu

Não é preciso revisar nem reler logo após escrever, mas depois de uma semana ou um mês, é muito legal revisitar as páginas anteriores. Fazer isso é uma ótima forma de lembrar o que já passou, refletir sobre como você estava, aprender mais sobre si e sobre a sua escrita e, dessa forma, ter novas perspectivas para as próximas páginas.

E aí, que tal começar hoje a registrar mais a sua vida? Separar um caderninho ou alguma ferramenta digital é um meio de ter um incentivo extra para colocar isso em prática. Espero que a escrita diária consiga levar seus pensamentos e suas emoções para ampliar o seu autoconhecimento e explorar outras possibilidades, assim como tem feito comigo.

Obrigada por me acompanhar nesse post. Até mais!