observar a cidade e deixar que ela também te veja

observar a cidade e deixar que ela também te veja

Naquela tarde nublada, o tempo parecia dizer que caminhar era a melhor escolha a ser feita. Sim, colocar uma roupa leve, sair de casa e não pensar muito sobre os afazeres ou as obrigações da semana, pelo menos por algumas horas.

Coloquei o sapato mais confortável que eu tenho, pensando em explorar um território que há meses não podia contemplar: a cidade em que vivo. Olha, aquele lugar é novo? Caramba, eu nunca tinha prestado atenção naquela esquina. Aqui não tinha um banquinho?

Foi então que, na rua, as avistei e percebi que elas haviam decidido o mesmo que eu para aquele dia. Estavam simplesmente andando por aí, conversando, deixando a cidade transbordar por entre os olhos e os passos.

Fazia tempo que eu não separava alguns minutos pra observar a cidade e prestar atenção na rua. Entre os prédios e as árvores, as inconstâncias e rachaduras do tempo-espaço, ainda havia tanto para ser visto abaixo das nuvens vestidas de chuva. Levar as pernas para passear é como reunir o afeto do olhar, em busca de registrar encanto, com a curiosidade dos pés.

Por meio da realidade, também é possível escrever outras narrativas, e é quando saímos de casa que podemos apreciar os detalhes do acaso. Eu sempre me surpreendo com o quanto sair para caminhar é algo que pode mudar a nossa perspectiva sobre o dia, o presente e o que achamos conhecer. É feito um rito de passagem para o desconhecido que mora logo ali e, às vezes, não conseguimos perceber.

Eu gosto de pensar que sair de casa para caminhar e observar a cidade se parece com o momento de tomar banho em um rio. Após mergulhar, sempre há algo que muda dentro de nós. E isso nos faz ver a vida pela fluidez de outras águas também.

Qual foi a última vez que você se permitiu sair de casa sem um compromisso específico para além do desejo de ver a cidade em que mora e, assim, observar os arredores? Fazer isso, além de gerar mais leveza para os dias, é uma ótima forma de plantar sementes de imaginação e criatividade pelo caminho.

menos busca por resultados, mais encontro com o caminho

menos busca por resultados, mais encontro com o caminho

Se você já deixou de fazer algo por medo de dar errado ou não se sentiu 100% para comemorar algum processo seu, porque tinha a ideia de que esse momento de celebração pertenceria somente à conclusão ou conquista de alguma situação, bem-vinda ao clube. Por muitas vezes, apesar de amar a criatividade e a soma de processos que ela gera, é comum ter receio de enfrentar algo incerto, com aquele pensamento de pensar no “e depois?”.

Isso tem muito a ver também com o medo da folha em branco. Até escrever o primeiro parágrafo, a primeira página, normalmente, vem aquele pensamento de que a mente está bloqueada, de que não vai dar certo, de que você não vai conseguir mesmo e, então, nem vale a pena tentar. E isso pode acontecer com qualquer pessoa, mas é preciso olhar com mais gentileza para o processo em vez de buscar apenas pelos resultados.

Apesar de a vida ter uma linha do tempo com um ponto de partida e chegada, qualquer outra certeza que possamos esboçar para além disso é algo ilusório. A gente não pode ter controle sobre tudo, e imagina que chato se pudesse? Então é válido exercitar o nosso olhar para as incertezas de uma forma mais leve (o que normalmente esquecemos de fazer quando nos envolvemos muito com as tarefas e as circunstâncias do dia a dia).

Essa pintura foi muito especial e gratificante pra mim, pois a fiz apenas com o intuito de colorir mais uma página do caderno, usando pastel oleoso e guache, sem me preocupar sobre como iria ficar. Já fazia um tempo que eu não aproveitava o processo de algo de uma forma tão tranquila, e foi divertido me permitir apenas testar os materiais que eu já tinha para aproveitar uma tarde de sábado. Foi um momento de descanso de qualidade também, pois acabei esquecendo de tudo ao redor e respirando com mais leveza por alguns minutos.

Valorize os seus processos

Por mais desafiadores que sejam alguns trajetos, você deve se permitir tentar, errar e admirar a vista. Até porque só é possível saber se a paisagem agrada e se você consegue ir até lá, se tiver a coragem de dar os seus primeiros passos, entendendo a sua vulnerabilidade, aceitando que pode falhar e que o caminho também merece ser contemplado para além dos acertos.

Alguns percursos são cheios de placas sinalizando atalhos ou melhores opções, enquanto outros seguem mais o estilo de “o caminho se aprende caminhando”, mas nem todos vão mostrar as respostas que você procura. Talvez você acabe encontrando mais perguntas ou uma mudança de rota, quem sabe? A jornada percorrida já é um resultado também.

Quando entrei para o processo de seleção do mestrado, o qual estou cursando agora, senti o medo de não dar certo em diversos momentos. O processo foi de agosto a dezembro de 2019, dividido em várias etapas. A cada vez que eu via meu nome na parte de pessoas aprovadas, em vez de comemorar que passei em mais uma, já focava na próxima etapa. Eu não me permiti parabenizar os meus esforços no meio do caminho por pensar que ainda era preciso enfrentar mais etapas até a “linha de chegada”, como se estivesse em uma maratona.

Em alguns momentos a gente não vai ter forças para reconhecer os nossos esforços e realizações. É totalmente normal passar por situações em que o cansaço fala mais alto do que a vontade de apreciar a vista, mas vale ter mais empatia consigo, separar um tempinho para si e acolher seus sentimentos em vez de carregar mais cobranças.

Confie mais em você do que no seu perfeccionismo

Às vezes a gente coloca tanta pressão para encontrar resultados perfeitos ou fazer algo da melhor forma, que negligenciamos quem somos, a nossa dedicação e a vontade de tentar, enxergando somente o que ainda nem aconteceu e as opiniões de outras pessoas em vez de aproveitar o momento presente, nossos aprendizados, os lugares já visitados e as bagagens que carregamos até aqui.

Como a Yasmin, da Flor de Mim, nos ensina sabiamente, “o perfeito não existe”, então em vez de deixar de fazer algo que faz bem a você pelo medo de não sair como imaginava nem gerar os resultados almejados, se permita tentar.

O Neil Gaiman também já deu um conselho valioso sobre isso: “A perfeição é como perseguir o horizonte. Continue andando.” Utilize seu repertório, seus hobbies, seus conhecimentos, seus sonhos, algo que faz bem a você, para se desenvolver e escrever a sua própria história, e não se diminuir ou se pressionar tanto em busca do inalcançável.

Afinal, o que é a perfeição que você busca? O que é considerado perfeito para alguns, não o é para outros, e sempre foi assim. Então vale tentar não usar mais os medidores de “perfeito” de outras pessoas para, assim, traçar os seus próximos passos da forma que você conseguir caminhar e se sentir bem, combinado?

O caminho se faz caminhando

A sua estratégia não precisa ser vinculada a um “bom” resultado, pode ser simplesmente tentar, fazer algo. Talvez você encontre os bons resultados que você deseja, sim, e até alívio em descobrir que o perfeccionismo não é necessário no meio do caminho, mas isso é uma consequência de caminhar, e não mais o principal objetivo. Pensar dessa forma talvez ajude naqueles momentos em que nos sentimentos travados por medos, vergonhas ou preocupações no geral.

Criar alguma coisa, dar os primeiros passos em um novo projeto ou ir em busca de realizar aqueles sonhos que trazemos conosco, muitas vezes, é um percurso desafiador por envolver partes tão nossas, mas é importante pensar que fazer o nosso melhor não é seguir um padrão idealizado por outros, mas dar o melhor que podemos nas condições atuais, e que o caminho se faz assim. Caminhando mesmo, porque é uma trilha, e não uma reta final.

Austin Kleon nos lembra da importância de fazer “arte ruim” ou “arte feia”: “Bom” pode ser uma palavra sufocante, uma palavra que faz você hesitar e olhar para uma página em branco e se questionar e jogar coisas no lixo. O importante é mexer as mãos e deixar que as imagens venham. Se é bom ou ruim, não vem ao caso. Apenas faça algo.” Nada é definitivo, então por que não tentar se divertir com as possibilidades que são desenhadas?

Fazer coisas sem tantas cobranças ou julgamentos é essencial para manter a criatividade (e ter mais leveza entre um desafio e outro). Uma das partes mais emocionantes da jornada é quando a gente começa a entender a importância de se libertar dos medidores de sucesso dos outros para sermos quem somos e não sentirmos mais a necessidade de nos explicar caso haja alguma mudança no caminho. Espero que você consiga se permitir tentar. Por aqui, também sigo caminhando. Coragem e força para nós!

Abraços, e fica bem.

Do que você não abre mão?

Do que você não abre mão?

Certa vez, me fizeram essa pergunta em uma entrevista para um trabalho – “do que você não abre mão?” – e, por um momento, fiquei sem saber o que responder, então perguntei em qual sentido era aquela pergunta. O profissional do RH foi bem enfático e perguntou novamente o que eu realmente não abriria mão. Sem pestanejar, eu falei que não abriria mão da minha saúde. Expliquei que, no início da minha vida profissional, eu costumava ir além do meu limite para entregar as demandas sempre o mais rápido e da melhor forma que eu pudesse e que isso, a longo prazo, desgastou muito a minha saúde – física e mental – a ponto de agora eu ter a consciência de que por mais que possa haver outras coisas muito importantes, eu preciso priorizar a minha saúde, porque sem ela não há vida pessoal nem muito menos profissional.

Tanto as enxaquecas “fora de hora” quanto a sensação de cansaço que não passa com algumas horinhas de descanso (e até a famigerada síndrome de impostora ou o temido burnout) são algumas das situações que estão muito ligadas ao fato de acharmos que não precisamos respeitar o nosso ritmo quando o assunto é trabalho, por ser algo tido como obrigação e necessidade. E, tudo bem, trabalho é isso mesmo, mas onde fica todo o resto? Ao entender que a nossa vida também precisa de atenção e demanda uma série de cuidados, passamos a encarar os nossos afazeres profissionais como uma parte dela, não mais representando a parte principal ou a mais importante.

Fiquei em dúvida se essa foi a melhor resposta que eu poderia dar a um profissional de RH? Com certeza. Pensei em mil outras coisas consideradas “melhores” que eu poderia ter falado em vez de dizer que priorizava a minha saúde, mas qual diferença isso iria fazer, no final das contas, se aquele trabalho nem iria pensar em priorizá-la?

Quando passei a trabalhar de forma autônoma, levei um bom tempo para entender isso, mas a ficha finalmente caiu: se a gente não olhar pra nossa saúde e pra nossa vida com mais carinho, ninguém vai. Por mais clichê que essa frase seja, ela é o mais puro suquinho da verdade (normalmente clichês são assim). Depois que parei pra pensar em todo o processo que foi pra eu entender que cuidar da minha saúde e priorizar isso, é uma resposta justa, sim, acabei me sentindo orgulhosa por perceber o que tenho conseguido aprender com minhas experiências.

Se tem algo que não deve trazer mal estar ou culpa é cuidar de nós mesmos e procurarmos sempre o melhor para a nossa vida. Falar sobre isso me lembrou de uma cena do filme Inferninho (2018), dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, em que há um discurso sobre olhar com mais carinho para nós mesmos e buscar outras possibilidades de existência em nossa jornada:

“Tu tem que fazer alguma coisa. Tu tem que tomar alguma atitude. Passou a vida inteira esperando, esperando. […] Era só tu abrir o portão e… Mas tu não, tu fica aqui, se maldizendo da vida e botando a culpa em tudo e em todo mundo… a vida é tua, Deusimar. Então trata bem da vida. Faz assim ó, carinho na vida, não maltrata a vida não.”

Eu sei que cuidar da saúde é um processo trabalhoso, definitivamente não é linear nem acontece da noite pro dia: ele é construído aos pouquinhos, mas se a gente organizar direitinho, dá pra ter hábitos saudáveis de uma forma mais leve e sem se cobrar tanto ao longo da rotina. É o que tenho tentado – aos trancos e barrancos – por aqui. O checkup médico, as sessões de terapia e o seu eu mais velho agradecem.

Se cuida, e fica bem. Até logo!

Vale a pena escrever um diário?

Vale a pena escrever um diário?

Qual foi a última vez que você escreveu sobre os seus dias? Por mais que a palavra diário remeta à adolescência ou infância, ele é uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, cura e aprendizado que pode ajudar até na construção da nossa memória e identidade pessoal independente da nossa idade. Entender o que sentimos por meio de palavras é um exercício que, a princípio, parece pode parecer desafiador para alguns e bobo para outros, mas nos aproxima de nós mesmos e gera diversos outros benefícios quando é algo feito com frequência.

Na vida adulta, voltei a escrever diário com mais frequência só a partir do ano passado e pude perceber uma diferença impressionante no modo de organizar meus pensamentos por meio da escrita. Isso porque, muitas vezes, tenho dificuldade em expressar o que realmente estou sentindo, mas ao fazer isso diariamente, utilizando palavras, senti mais facilidade no fluxo de sensações-pensamentos-texto.

É claro que nem sempre consigo seguir a sequência dos dias, porque esqueço em alguns, e em outros acabo deixando pra última hora, mas tento manter uma constância e logo retorno pelo bem que me faz. A escrita sobre os meus dias se torna um lugar em que eu posso falar de forma mais livre, transbordando o que não cabe mais no peito e na cabeça. Isso me ajuda bastante nos momentos de terapia também, pois me faz levar alguns assuntos que merecem ser discutidos de forma mais aprofundada.

Se você tem medo de começar a escrever um diário e parecer que está em um retorno à adolescência, não precisa se preocupar com isso: a nossa escrita tem a ver com o que estamos vivenciando no momento, nossas experiências e nosso repertório e, assim, o que escrevemos reflete o nosso estado presente. Então, sim, vai ser bem diferente do “querido diário”, como a Carol Figueiredo fala em seu podcast, e um lugar único para expressar o que você quiser.

Para começar a escrever um diário depois de adulta — e conseguir manter a constância durante a rotina — é importante ter em mente alguns pontos que fazem toda a diferença nessa jornada, que são:

julgue menos e escreva mais

Achar que não vale a pena escrever um diário por ser algo que remete à adolescência ou infância já é um tipo de julgamento que pode aparecer como barreira para exercitar essa prática. Então em vez de pensar assim, de forma autocrítica, é importante abrir espaço para essa experiência e se permitir escrever com mais fluidez e menos preocupação, afinal, o que você vai escrever não precisa ser visto por outras pessoas.

O diário é um espaço só seu, pode ser escrito do jeito que você preferir, sem importar a caligrafia, o tempo dedicado a esse momento, o número de páginas ou as temáticas abordadas. Em uma aula que assisti um dia desses sobre a importância de escrever diários, da escritora Ana Holanda, vi que um dos maiores medos é não saber por onde começar, mas a autora deu a dica de escrever sobre o que está ao redor: o cheiro que vem da cozinha, o barulho que pode ser ouvido pela janela, os hábitos de quem mora com você, tudo pode ser um motivo para um texto.

deixe o texto fluir

É válido pensar o diário como um momento para fluir pensamentos e emoções, sem regras: a escrita diária não deve ser vista como uma demanda a mais, mas como uma hora de ser livre para colocar no papel (ou em outra mídia que preferir) o que vier à cabeça e ao coração. É uma conversa íntima com você mesma, e não precisa ser perfeita.

Austin Kleon fala que gosta de manter a escrita em diário, porque o ajuda a prestar mais atenção em sua vida, contribui para a sua terrível memória e é um ótimo lugar para ter ideias “ruins”, pelo fato de ser um espaço privado para os seus próprios pensamentos: você é livre para escrever ou rabiscar o que quiser.

tente exercitar a autocompaixão

Às vezes, quando falamos com o nosso interior, podemos ter bastante rigidez ou autocrítica. Eu já deixei de escrever durante um tempo por achar que tudo que eu escrevia era bobo ou sem importância em vez de olhar as coisas como parte de uma jornada para aprender mais e, assim, continuar a nadar tentar. Não é fácil evitar a comparação com outras pessoas ou olhar com mais gentileza para os nosso erros e até para o que conquistamos também, mas vale exercitar isso na escrita.

Então quando for escrever, que tal perceber o jeito que você fala consigo e colocar em prática a autocompaixão? Essa pequena atitude, aos poucos, é transformadora e pode deixar marcas positivas para além do papel. Há um episódio do podcast Autoconsciente (que é um dos que mais amo ouvir, e recomendo muito), que fala sobre a importância de perdoar a si mesmo e ter mais gentileza com seus erros para ter mais saúde mental e física ao longo da vida.

palavra-coração-infinito

releia o que você escreveu

Não é preciso revisar nem reler logo após escrever, mas depois de uma semana ou um mês, é muito legal revisitar as páginas anteriores. Fazer isso é uma ótima forma de lembrar o que já passou, refletir sobre como você estava, aprender mais sobre si e sobre a sua escrita e, dessa forma, ter novas perspectivas para as próximas páginas.

E aí, que tal começar hoje a registrar mais a sua vida? Separar um caderninho ou alguma ferramenta digital é um meio de ter um incentivo extra para colocar isso em prática. Espero que a escrita diária consiga levar seus pensamentos e suas emoções para ampliar o seu autoconhecimento e explorar outras possibilidades, assim como tem feito comigo.

Obrigada por me acompanhar nesse post. Até mais!

o corpo pede um pouco mais de pausa

o corpo pede um pouco mais de pausa

Acordou, sentiu uma estranheza em seus braços. Correu para o espelho e viu manchas vermelhas, revelando uma pele irritada de um jeito que nunca havia visto antes. As manchas se espalharam do pescoço às pernas, percorrendo todo o corpo e gerando diversos incômodos. O que poderia ter causado aquilo? Não lembrava de ter ingerido nada diferente no dia anterior, e não entendeu o porquê daquela crise alérgica tão grave e repentina. Precisou tirar um dia de descanso, quase à força, longe das telas e da necessidade de estar online, e só então melhorou.

Esse trecho que você acabou de ler retrata um dos dias em que meu corpo adoeceu pela falta de descanso mental durante a pandemia. Até eu perceber que estava esgotada e, com isso, foram dias me cobrando e culpando por achar que não estava fazendo o suficiente.

Em meio a todo o caos que estamos vivendo, ainda há também quem ache que é preciso fazer sempre mais para que fique tudo bem, porque “hashtag vai dar certo“: mas não está tudo bem e já deu muito errado.

Não é questão de ser pessimista ou algo do tipo, mas de tentar lembrar que não precisamos ser úteis o tempo todo, que é preciso descansar um pouco, sim, e também viver períodos de tristeza, de luto, angústia. O melhor que podemos fazer a cada dia não vai ser sempre o mesmo, porque, como a @flordemim sempre lembra, a gente não está sempre no nosso 100% (nem precisa se forçar a estar).

Assim como na canção de Lenine, é preciso ter calma, se recusar, fazer hora e ir na valsa. Por que não? Nesse período de quarentena, em que evitei sair de casa ao máximo que pude, senti os dias escorrendo pelos dedos enquanto fiz muitos esforços para continuar em movimento, mas o que eu ainda não sabia é que repousar também é uma forma de se movimentar.

Entre terapias extras, enxaquecas, vontade de sumir no meio do mato, noites de muito sono e outras de insônia, dias de baixa concentração para qualquer atividade, crises de rinite e a crescente necessidade de simplesmente fazer nada, eu tenho aprendido algumas coisas e decidi compartilhar por aqui.

observe o que o seu corpo tem falado

Por incrível que pareça, em muitos momentos, o nosso corpo sabe reconhecer mais o que precisamos do que imaginamos. O perigo é que a gente quase sempre acha que é algo bobo, que pode passar com a ajuda de algum remedinho e vamos que vamos, deixando de perceber sinais importantes para a saúde mental, física e emocional ao longo da rotina, o que pode gerar uma série de problemas.

tente entender, com gentileza, as suas mudanças internas

Apesar de a gente observar com mais facilidade o que muda no visual das pessoas, o cabelo, as roupas, o modo de se expressar, entre outros, olhar para dentro é uma parte importante na busca de se conhecer mais e, assim, descobrir novas formas de ser mais gentil com as transformações da vida. Tudo tem passado rápido demais, eu sei, a gente já está em agosto de 2021 (e parece que ontem era março de 2020), e ao mesmo tempo tanta coisa já mudou.

Já são quase dois anos de distanciamento social e diversas outras preocupações a mais para lidar, então tente se cobrar menos e se permita observar, com mais carinho, as mudanças de rotas até aqui.

é preciso saber como se planejar, mas lidar com imprevistos também

Já faz um tempo que eu tenho o costume de planejar a semana, os meses, enfim, usando planner ou bujo, o que tem me ajudado muito. Porém, deixei de fazer isso em vários momentos da pandemia, por ansiedade ou por achar que não valia nada continuar se planejando (o mundo já tá acabando mesmo, né?).

Entretanto, é essencial encontrar o equilíbrio entre o que pode ser planejado e o que pode acontecer para além do nosso controle. Tenho engatinhado bastante nesse aprendizado, mas já percebi muita diferença de lá pra cá.

o que funciona para outra pessoa pode não servir pra você (e vice-versa)

Por mais clichê que seja falar que cada pessoa tem o seu próprio ritmo, essa é uma verdade super válida de lembrar a qualquer hora (principalmente naquelas em que você tenta se comparar a quem tem uma vida completamente diferente da sua).

Eu passei muito tempo tentando encontrar métodos de me concentrar ou me manter mais motivada, o que proporcionou momentos bem estressantes e confusos, com base nas experiências de outras pessoas, até perceber que era preciso achar o que realmente funciona pra mim — e entender também que o que dá certo hoje pode não dar mais amanhã.

separe um tempo para não fazer nada

Se você também já passou por aquele ciclo de estar com muito cansaço e não conseguir fazer nada e, depois, se culpar por estar sem fazer nada, eu recomendo tirar um tempinho para ficar realmente sem fazer nada. Sim, por mais que a gente relute em achar que fazer algo produtivo é mais importante, é preciso lembrar que cuidar de você também já é fazer alguma coisa (e a sua saúde agradece).

Além de tirar um tempo só pra descansar, as atividades fora das telas foram as que mais me ajudaram a manter a calma e desopilar a cabeça (entre elas, as principais foram ler, escrever, brincar com meus gatinhos, cuidar de plantas, cozinhar receitas novas — o mundo acabando e eu indo fazer bolo mais uma vez — dançar do jeito que der, meditar e tirar fotos do cotidiano com câmeras analógicas). Quais práticas estão fazendo parte do seu dia a dia nos momentos de descanso e lazer?

Ter um tempo de qualidade para si é algo transformador para a mente e o corpo, e é algo que pode ser trabalhado aos poucos. No meu caso, tive que começar a aprender por forças maiores (gif do menino que ri e chora ao mesmo tempo), mas viver é estar em constante aprendizado mesmo e fico feliz por estar dando os primeiros passos nesse caminho de olhar com mais gentileza para o que preciso e também por ter partilhado um pouco sobre isso por aqui.

Vou continuar nessa busca de dar mais atenção à saúde mental e física, então provavelmente devo compartilhar outros aprendizados depois. Agora me fala de você, como tem sido a sua rotina e como tem lidado com o cansaço ou o estresse desses dias? Que tal separar um tempinho para descansar nessa semana?

Espero que você aproveite melhor os seus próximos momentos livres. Obrigada por ter me acompanhado nesse post!

Até mais!

uma outra forma de falar sobre o que se é

Você já reparou que, depois de entrar na fase adulta, falar sobre quem se é torna-se um desafio, e nossas apresentações normalmente são preenchidas pelo que fazemos nos setores profissionais ou acadêmicos? É como se não houvesse outro meio de gerar uma rápida identificação do que somos às pessoas que ainda não conhecemos (a não ser uma espécie de mini entrevista de onde você estudou, no que trabalha e o que pensa em fazer nos próximos anos). E toda aquela conversa de “o que você quer ser quando crescer?”, que a gente escuta quando criança, pode gerar outras reflexões a partir disso.

No finalzinho do ano passado, tive uma grata surpresa: no curso online de escrita afetiva, da Aliás Editora, a escritora e professora AnnaK propôs um exercício em que eu e outras mulheres devíamos pensar em novas formas de nos apresentar, em poucos minutos, sem falar sobre nossas profissões. Já imaginou falar sobre você, focando no que tem valor mais afetivo e não no que você atua na rotina de trabalho e/ou estudo? Olha, posso dizer que vale muito a pena tentar fazer esse exercício.

Escrever sobre quem a gente é, sem utilizar as famigeradas credenciais, é uma ótima ferramenta de autoconhecimento: nunca é tarde para entender mais sobre as nossas motivações internas e ir em busca de aprender a só ser, como diz a música maravilhosa de Gilberto Gil.

Em um dos primeiros empregos CLT que trabalhei, eu gostava de usar o horário de almoço pra caminhar logo após a refeição. Não tinha um destino certo em mente, só a vontade de aproveitar aquele tempinho livre pra andar pela rua e espairecer a mente, e essa é uma das maiores saudades que carrego, porque gosto muito de caminhar assim, observando o movimento das pessoas, dos carros e das bicicletas, os gatinhos passeando entre as plantas da praça, as conversas na calçada, o cachorro em frente à padaria e a pressa de atravessar as avenidas. Era uma pausa que me encantava no dia, porque naquela hora eu não era uma analista de conteúdo de uma agência de marketing digital. Eu era uma caminhante, sem nenhuma necessidade de ser algo para além disso. E é isso, a gente nunca é algo definitivo, a gente só está.

Durante esse período de quarentena, eu tenho sentido muita falta desses momentos de caminhar ao ar livre. Dia vai e vem, em uma montanha-russa de emoções, pude observar coisas que aquecem o meu coração mesmo em meio às circunstâncias oscilantes ao longo dos meses, e então resolvi transformá-las em pequenos registros para compartilhar com você. <3 Aqui vão alguns deles.

fotos com meu amor, Rodrigo, para sempre olhar nas horas de estudo e trabalho
Bento tirando a sonequinha da beleza à tarde (posso passar horas admirando meus gatinhos)
Tulipa vendo eu tirar mais fotos: “de novo, mãe? me deixa dormir” kkkkkk
calendário inspirador, da Gabri Neara, pra inspirar e organizar o dia a dia
aprender a cuidar de plantinhas também ensina a gente a se amar mais

Então, para além do trabalho freelancer com produção de conteúdo e o mestrado em comunicação na UFC, eu sou mãe de plantas e de gatinhos (Bento e Tulipa), estou sempre com itens de papelaria por perto, amo aprender coisas novas, sempre tive paixão por experimentações artísticas, gosto muito de testar receitas na cozinha e fazer comida para quem amo, faço terapia em busca de me conhecer mais, estou tentando aprender passinhos de dança com patins, faço playlists para diferentes momentos/sensações, sempre estou lendo algo e amo tirar um tempinho pra ficar de bobeira vendo série ou filme.

E você, me conta um pouquinho da sua vida para além do crachá ou do currículo? É importante fazer a tentativa de falar sobre você para além do que os outros já veem no cotidiano. Vou amar ter a chance de trocar ideias com você por aqui. <3 Até logo, e se cuida.