o que a vulnerabilidade tem a ver com a criatividade?

o que a vulnerabilidade tem a ver com a criatividade?

Apesar de o universo criativo normalmente ser retratado como um lugar colorido, leve e divertido, a vida real está longe de seguir essa representação.

No dia a dia, é comum enfrentar medos, imprevistos, preocupações e incertezas em diversas áreas e, ao tentar omitir essas emoções ou fugir de momentos difíceis a qualquer custo, também podemos nos fechar para as coisas boas que podem surgir. Afinal, viver é experimentar uma porção de coisas diferentes e, quanto mais você se entrega a isso, mais chances você ganha de expandir os significados que dá à própria vida.

Assim como a vida é cheia altos e baixos, a criatividade pode ir e vir: é importante deixá-la livre e aproveitar esse fluxo, pois não é sempre que a inspiração vai estar disponível, mas vale a pena continuar tentando.

vulnerabilidade e criatividade andam juntas

Por meio da coragem de se permitir tentar, você pode descobrir coisas novas, entender os seus propósitos, obter insights valiosos e lidar com os dois lados da moeda de ter uma vida plena e mais criativa. Tá, mas o que isso tem a ver com a vulnerabilidade? Tudo, como nos lembra a Brené Brown em A coragem de ser imperfeito:

Vulnerabilidade não é conhecer vitória ou derrota; é compreender a necessidade de ambas, é se envolver, se entregar por inteiro. Vulnerabilidade não é fraqueza; e a incerteza, os riscos e a exposição emocional que enfrentamos todos os dias não são opcionais. Nossa única escolha tem a ver com o compromisso. A vontade de  assumir os riscos e de se comprometer com a nossa vulnerabilidade determina o alcance de nossa coragem e a clareza de nosso propósito.

Ao entender que ser vulnerável não é ser fraco, mas ter a coragem de enfrentar os desafios que surgem e, assim, continuar a sua jornada, você passa a se conhecer mais, explorando os seus defeitos e as suas qualidades, reconhecendo a sua força interna, sendo quem você realmente é e se aproximando de experiências que podem transformar a sua vida.

o caminho se faz ao caminhar

Criar ou produzir algo normalmente mexe com o medo de errar, a insegurança de receber críticas ou a angústia por não fazer algo “perfeito”, mas é preciso lembrar que a perfeição é algo extremamente subjetivo e inalcançável na realidade humana, e o melhor que você pode fazer para ter um caminho criativo é continuar caminhando.

Eu lembro de uma aula da disciplina de criação publicitária, quando estava na graduação, em que a professora perguntou quem não se achava criativo, e apenas uma pessoa levantou a mão. A verdade é que a criatividade não pertence apenas a algumas pessoas, e é possível perceber isso até nas pequenas coisas da rotina: a inspiração para criar algo não remete apenas à realização de obras de arte, mas também a buscar soluções para enfrentar desafios, contar histórias e encontrar formas de facilitar a vida.

A Elizabeth Gilbert, autora de Grande Magia – Vida criativa sem medo, afirma que:

Se você está vivo, é uma pessoa criativa. Eu, você e todo mundo que conhecemos descendemos de milhares de  gerações de criadores. Decoradores, reparadores, contadores de histórias, dançarinos, exploradores, rabequistas,  percussionistas, construtores, cultivadores, solucionadores de problemas e embelezadores — esses são nossos  ancestrais comuns.

Por meio da leitura dos livros A coragem de ser imperfeito e Grande Magia, pude aprender que a vergonha, a insegurança e o perfeccionismo são sentimentos que podemos tentar nos livrar sempre que aparecerem para não deixar de fazer o que gostamos nem abandonar os nossos sonhos, vínculos e propósitos.

De acordo com a Brené Brown, nós podemos substituir a dúvida sobre o que os outros vão pensar pela generosidade, aceitação e pelo amor próprio, acreditando no nosso valor e nos permitindo continuar experimentando, aprendendo e tentando.

é por aí que a luz entra

Perceber as suas dificuldades e encarar a vulnerabilidade não é expor tudo o que você tem passado nem se fechar atrás de “escudos”, mas reconhecer o que você carrega de bom, as suas conquistas e, principalmente, ter um olhar mais gentil com as suas falhas e a sua trajetória.

Vale observar os passos que você já deu até então e pensar em formas ainda melhores de viver e se conectar tanto com os seus propósitos quanto com as outras pessoas. Brené Brown confirma que:

Quando estamos vulneráveis é que nascem o amor, a aceitação, a alegria, a coragem, a empatia, a criatividade, a  confiança e a autenticidade. Se desejamos uma clareza maior em nossos objetivos ou uma vida espiritual mais  significativa, a vulnerabilidade com certeza é o caminho. Sei que é difícil acreditar nisso, sobretudo quando  passamos tanto tempo achando que vulnerabilidade e fraqueza são sinônimos, mas é a pura verdade. Vulnerabilidade é incerteza, risco e exposição emocional.

O que você tem deixado de criar para se aproximar de si e dos outros por causa do medo de não corresponder a algumas expectativas? Refletir sobre o que tem atrapalhado a sua jornada pode ser o primeiro passo para alcançar uma vida mais plena, com aquele quentinho no coração que você merece.

Esse post estava na parte de rascunhos há uns dois meses, mas criei coragem de escrever e publicar ele hoje por aqui, e isso é resultado de uma série de reflexões que tive após ler esses dois livros. ❤️ Espero ter ajudado você a refletir sobre a importância da vulnerabilidade para ser mais gentil consigo e praticar a sua criatividade também.

Se cuida, e até mais!

pequeno mapa do tempo

pequeno mapa do tempo

Depois de uma breve pausa, em que meu corpo me obrigou a parar um pouco por questões de saúde, tenho tentado reencontrar o que pode trazer mais sentido à minha rotina e, assim, eu resolvi mexer em algumas gavetas de memórias.

Às vezes, é comum ter dúvidas sobre quem somos ou o que mais gostamos de fazer: se perder faz parte da vida de quem gosta de explorar, descobrir coisas novas e criar. Nessa parte do caminho, nada melhor que um mapa pra orientar os próximos passos.

Por mais que você possa ter deixado de lado alguns dos seus hobbies, o que faz seu coração bater com mais alegria ou o que pode trazer mais leveza aos seus dias, provavelmente você lembra do que gostava de fazer quando era criança.

Quais hábitos a sua mini versão costumava colocar em prática no dia a dia? São aquelas coisinhas que a gente vai praticando diariamente que nos levam pra outros caminhos em nossa história, mesmo que isso às vezes passe despercebido.

O que faz parte da nossa essência não é somente o que demonstramos ser hoje nem o que almejamos para o futuro, mas principalmente a construção de tudo o que poderíamos ser, que começou a ser realizada lá na infância.

Tem dia que o medo de não conseguir fazer algo nos paralisa, mas podemos ter um pequeno mapa do tempo, nos guiando para onde ir, se olharmos para a nossa criança interior.

de volta ao quintal

Nos últimos dias da semana, tiveram vários dias de chuva, aqui em Fortaleza, e olhar esses pingos d’água dançando com o vento me leva de volta ao quintal de uma casa que marcou a minha infância.

Aquele quintal era o maior espaço da casa. Por lá, eu e meu sobrinho podíamos correr e tomar banho de chuva como se não houvesse mais nada acontecendo no mundo. Era como congelar o tempo.

Naquela época, a produtividade do dia era medida pelo número de risadas, tipos de brincadeiras, quantidade de passos dados, guloseimas compartilhadas, desenhos assistidos e novos aprendizados.

Certa vez, um amigo me disse que cada pessoa era como uma casa e que, ao se apresentar para outras, ela poderia decidir quais cômodos mostraria de acordo com a conexão. Penso que as coisas que remetem a quem realmente somos se encontram em nosso quintal.

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.

Manoel de Barros

viagem no tempo

Longe de ser apenas uma forma de ter nostalgia ao visitar o nosso passado, olhar com carinho para a criança que fomos é traçar percursos possíveis de sonhar, ser quem somos, viver e continuar aprendendo mais sobre o que pode servir como um potente combustível interior.

Já imaginou explorar um mapa do seu passado-presente-futuro e, com isso, descobrir mais sobre você e o que faz sentido estar na sua vida? Então vale pensar em quais coisas mais despertavam a sua curiosidade, o que fazia você passar horas com foco, o que te dava mais energia ou mais cansaço, e o que fazia o dia ser mais especial.

Aqueles sonhos ou habilidades que foram esquecidos, com o passar do tempo, podem reaparecer. Caso você não consiga lembrar de muita coisa, também pode perguntar para quem convivia com você.

Você tem uma gaveta, caixa ou pasta de memórias? Te convido a separar um tempo para revisitar esse lugar. Pequenos objetos podem contar histórias ao longo dos anos, mudando algumas perspectivas e nos ajudando a encontrar outras rotas com mais coragem.

Por aqui pretendo fazer mais caixas de recordações para guardar além dos registros fotográficos e, assim, desenhar possíveis trajetos para o futuro. E aí, que tal organizar o seu próprio pequeno mapa do tempo?

Obrigada por me acompanhar. Até logo mais!

estrela azul, uma leitura de “Só garotos”, de Patti Smith

estrela azul, uma leitura de “Só garotos”, de Patti Smith

Será que é possível viver de arte e respirar como se tudo fosse um sonho prestes a se revelar? Ser artista é criar algo que ninguém pode ver? À procura de si e do universo que ainda queria conhecer, Patti Smith nos presenteou com a escrita poética e honesta de Só garotos.

Nessa obra, ela relatou o seu encontro com Robert Mapplethorpe, com quem dividiu a vida, o teto, a ternura, os sonhos, a voz e tudo o que carregava de mais profundo em seu interior.

Comecei a ler o livro por ter sido uma proposta de leitura do mês do clube #LCentreestantes e, logo nas primeiras páginas, me apaixonei completamente. Sem dúvidas, ele se tornou um dos meus livros preferidos e, por isso, pretendo ler mais outras vezes.

Ainda não havia lido nada de Patti e foi uma experiência tão transformadora que fiquei me perguntando o porquê de ter demorado tanto, mas acredito que aconteceu exatamente no tempo certo.

a estrela azul

A escrita da obra autobiográfica foi uma promessa que Patti fez a Robert, pouco antes dele morrer. Diante de suas memórias afetivas, a artista reuniu imagens, retratos, poesias, referências de vários artistas incríveis, músicas e bilhetes realmente inspiradores para além do espaço-tempo.

Com isso, ela conseguiu contar a história de sua vida, do seu encontro e relacionamento com Robert – que a salvou de várias formas, do seu amor pela arte e dos percalços que percorreu para conquistar os seus sonhos, dos meados dos anos 60 e 70 em Nova York e, especialmente, da estrela azul:

“Saímos para caminhar à noite. Às vezes conseguíamos enxergar Vênus acima de nós. Era a estrela dos pastores e a estrela do amor. Robert a chamara de nossa estrela azul. Ele costumava fazer o t de Robert como uma estrela, assinando em azul para eu me lembrar.”

Só Garotos, de Patti Smith. Companhia das Letras, 2010.

só garotos

A escrita de Patti é tão linda, que é até desafiador falar sobre o livro. Por meio da leitura, é possível se encantar com a visão de mundo da autora e o universo que ela compartilhou com Robert, as transformações que eles passaram e suas lutas internas e externas.

É emocionante e inspirador perceber tudo o que eles queriam ser e viver, e o quanto eles foram vários ao longo de sua jornada pessoal, afetiva e artística.

Cada capítulo dessa obra, pra mim, foi como uma vela que você acende para perfumar e aquecer todo o espaço, deixando aquela sensação boa de nostalgia, conexão, afeto e harmonia.

“Em um dia de veranico vestimos nossas roupas favoritas, eu com minha sandália beatnik e uma velha echarpe, e Robert com suas amadas miçangas e o colete de ovelha. Pegamos o metrô até a West Fourth Street e passamos a tarde na Washington Square. Tomamos café de uma garrafa térmica, vendo grupos de turistas, gente chapada e cantores de folk. Revolucionários agitados distribuíam panfletos contra a guerra. Enxadristas atraíam uma multidão à parte. Todos coexistiam naquele zum-zum de diatribes verbais, bongôs e cachorros latindo.
Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho.
‘Oh tire uma foto deles’, disse a mulher para o marido distraído, ‘acho que são artistas’.
‘Ora, vamos logo’, ele deu de ombros. ‘São só garotos‘.”

Só Garotos, de Patti Smith. Companhia das Letras, 2010.

Patti e Robert

Entre tantas palavras imagéticas, a leitura nos leva a diversos cenários: bares, trabalhos, exposições e, principalmente, ao Hotel Chelsea (que é praticamente uma personagem da história, e é um ponto de virada na vida de Patti e Robert).

Além do processo de se encontrar e expor a sua voz no universo artístico, a obra também revela a caminhada deles no início de sua vida adulta, abordando diversas temáticas, entre elas: solidão, liberdade, medo, incerteza, paixão, amizade, fé, sonhos, amor, música, fotografia, arte, literatura, rock, fama, propósito, dor e vida.

A conexão que tive com o livro foi tão grande que, ao perceber que já estava pertinho das últimas páginas, deixei ele de lado por um tempo ao lado da minha cama, como quem quisesse adiar a despedida por mais uns dias.

Eu me emocionei do início ao fim e me sinto extremamente grata por ter lido essa obra de Patti, em que muitas memórias foram retiradas do diário que ela escrevia com atenção e sensibilidade.

Se conselho valer pra alguma coisa, te aconselho a ler Só Garotos e se encantar com os detalhes preciosos que ele carrega em cada palavra e registro.

Obrigada por me acompanhar aqui! Abraços e até a próxima 💖

Do que você não abre mão?

Do que você não abre mão?

Certa vez, me fizeram essa pergunta em uma entrevista para um trabalho – “do que você não abre mão?” – e, por um momento, fiquei sem saber o que responder, então perguntei em qual sentido era aquela pergunta. O profissional do RH foi bem enfático e perguntou novamente o que eu realmente não abriria mão. Sem pestanejar, eu falei que não abriria mão da minha saúde. Expliquei que, no início da minha vida profissional, eu costumava ir além do meu limite para entregar as demandas sempre o mais rápido e da melhor forma que eu pudesse e que isso, a longo prazo, desgastou muito a minha saúde – física e mental – a ponto de agora eu ter a consciência de que por mais que possa haver outras coisas muito importantes, eu preciso priorizar a minha saúde, porque sem ela não há vida pessoal nem muito menos profissional.

Tanto as enxaquecas “fora de hora” quanto a sensação de cansaço que não passa com algumas horinhas de descanso (e até a famigerada síndrome de impostora ou o temido burnout) são algumas das situações que estão muito ligadas ao fato de acharmos que não precisamos respeitar o nosso ritmo quando o assunto é trabalho, por ser algo tido como obrigação e necessidade. E, tudo bem, trabalho é isso mesmo, mas onde fica todo o resto? Ao entender que a nossa vida também precisa de atenção e demanda uma série de cuidados, passamos a encarar os nossos afazeres profissionais como uma parte dela, não mais representando a parte principal ou a mais importante.

Fiquei em dúvida se essa foi a melhor resposta que eu poderia dar a um profissional de RH? Com certeza. Pensei em mil outras coisas consideradas “melhores” que eu poderia ter falado em vez de dizer que priorizava a minha saúde, mas qual diferença isso iria fazer, no final das contas, se aquele trabalho nem iria pensar em priorizá-la?

Quando passei a trabalhar de forma autônoma, levei um bom tempo para entender isso, mas a ficha finalmente caiu: se a gente não olhar pra nossa saúde e pra nossa vida com mais carinho, ninguém vai. Por mais clichê que essa frase seja, ela é o mais puro suquinho da verdade (normalmente clichês são assim). Depois que parei pra pensar em todo o processo que foi pra eu entender que cuidar da minha saúde e priorizar isso, é uma resposta justa, sim, acabei me sentindo orgulhosa por perceber o que tenho conseguido aprender com minhas experiências.

Se tem algo que não deve trazer mal estar ou culpa é cuidar de nós mesmos e procurarmos sempre o melhor para a nossa vida. Falar sobre isso me lembrou de uma cena do filme Inferninho (2018), dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, em que há um discurso sobre olhar com mais carinho para nós mesmos e buscar outras possibilidades de existência em nossa jornada:

“Tu tem que fazer alguma coisa. Tu tem que tomar alguma atitude. Passou a vida inteira esperando, esperando. […] Era só tu abrir o portão e… Mas tu não, tu fica aqui, se maldizendo da vida e botando a culpa em tudo e em todo mundo… a vida é tua, Deusimar. Então trata bem da vida. Faz assim ó, carinho na vida, não maltrata a vida não.”

Eu sei que cuidar da saúde é um processo trabalhoso, definitivamente não é linear nem acontece da noite pro dia: ele é construído aos pouquinhos, mas se a gente organizar direitinho, dá pra ter hábitos saudáveis de uma forma mais leve e sem se cobrar tanto ao longo da rotina. É o que tenho tentado – aos trancos e barrancos – por aqui. O checkup médico, as sessões de terapia e o seu eu mais velho agradecem.

Se cuida, e fica bem. Até logo!

no meio do caminho tinha a vida adulta

no meio do caminho tinha a vida adulta

Minha mãe sempre conta que eu chorava dizendo que não queria crescer quando ainda era criança. Sempre dá vontade de rir pelo jeito que ela narra a situação, mas eu realmente tinha medo de ser adulta quando olhava a situação das pessoas mais velhas ao meu redor. Isso porque elas quase nunca tinham tempo pra brincar, viviam de um lado para outro, sempre pareciam ter muitas coisas pra fazer e preocupações na cabeça, e eu não conseguia imaginar aquela vida pra mim.

Provavelmente a mini Priscilla tinha a síndrome do Peter Pan e não sabia, né, mas a verdade é que eu só queria aproveitar ao máximo a infância e não deixar nunca que os problemas ou as dificuldades fossem maiores do que a vida em si. Enfim, a realidade sempre aparece, e quando ela chegou de verdade, com as oito horas diárias (ou mais) de trabalho na rotina CLT, eu fiquei sem saber o que fazer, deixei hobbies pra trás e alguns pedaços de quem eu costumava ser também

Hoje tenho pensado sobre como as coisas vão tomando um rumo rápido e até incalculável enquanto a gente pensa o que pode fazer para que a caminhada seja mais leve. Afinal, qual foi a última vez que você se permitiu viver algo pela primeira vez? E o que mais você gostava de fazer na infância? Essas perguntas podem nos levar a lembranças afetivas ou até despertar novas possibilidades que estavam guardadas em nosso interior, gerando outros modos de ver não somente o que está por dentro, mas também o que nos rodeia.

Estou cada vez mais pertinho de completar 30 anos, e essa idade é vista por muitas pessoas como um período em que já é preciso ter mais estabilidade em diversos setores, o que já foi conversa para algumas sessões de terapia (alô, retorno de saturno). Porém, como encontrar resposta em um padrão generalizado se cada pessoa tem um repertório de experiências tão diferentes?

Viver é um caminho de infinitos aprendizados e descobertas: não há uma idade definida para “passar de fase” nem há o porquê de comparar o seu crescimento com o de outras pessoas, já que cada uma está trilhando o seu próprio caminho e só podemos ser melhores do que fomos antes. Não teria graça se fosse tudo igual.

Eu não sou como a Priscilla de 13 anos — que usava uma franja cobrindo os olhos, passava lápis preto sem se preocupar se ia borrar, desenhava na hora da aula, ouvia blink 182 de dia e fresno à noite etc. — queria ou imaginava, mas aqui estou eu, equilibrando alguns pratinhos entre o mestrado e a vida de freelancer em redação e produção de conteúdo, e também tentando perder o receio de compartilhar as coisas que escrevo, penso e sinto.

A vida é meio que isso, ela não acontece como a gente imagina, mas acaba rendendo bem mais do que a nossa imaginação, exatamente pelos imprevistos, pelo que está no meio do caminho, por nos levar para outros lugares e fazer com que a gente descubra mais sobre o nosso interior para que, assim, a caminhada continue.

Que não esqueçamos que, diante de tanto malabarismo, tarefas, deslocamentos, boletos (cringe) e outras questões, a vida adulta também é um lugar para lembrarmos de ser quem somos, sonhar, esboçar outras rotas, abraçar o que já passou, aprender mais e se permitir viver as surpresas, mudanças, incertezas e experiências que estão por vir.

Dançar entre ciclos e mudanças é entender que o caminho não é feito só de “andar pra frente” — e que dar alguns passos para trás também não é necessariamente deixar de ter avanços — mas de aprender mais sobre o que está ao redor e, especialmente, sobre o que está no interior (e aprender a olhar isso tudo com mais carinho e autocompaixão). A vida adulta não é um fim, mas um processo, que envolve recomeços e que está sempre em movimento.

E aí, vamos nos permitir recomeçar a cada manhã? Obrigada por me acompanhar por aqui!

Se cuida. 💗

Vale a pena escrever um diário?

Vale a pena escrever um diário?

Qual foi a última vez que você escreveu sobre os seus dias? Por mais que a palavra diário remeta à adolescência ou infância, ele é uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, cura e aprendizado que pode ajudar até na construção da nossa memória e identidade pessoal independente da nossa idade. Entender o que sentimos por meio de palavras é um exercício que, a princípio, parece pode parecer desafiador para alguns e bobo para outros, mas nos aproxima de nós mesmos e gera diversos outros benefícios quando é algo feito com frequência.

Na vida adulta, voltei a escrever diário com mais frequência só a partir do ano passado e pude perceber uma diferença impressionante no modo de organizar meus pensamentos por meio da escrita. Isso porque, muitas vezes, tenho dificuldade em expressar o que realmente estou sentindo, mas ao fazer isso diariamente, utilizando palavras, senti mais facilidade no fluxo de sensações-pensamentos-texto.

É claro que nem sempre consigo seguir a sequência dos dias, porque esqueço em alguns, e em outros acabo deixando pra última hora, mas tento manter uma constância e logo retorno pelo bem que me faz. A escrita sobre os meus dias se torna um lugar em que eu posso falar de forma mais livre, transbordando o que não cabe mais no peito e na cabeça. Isso me ajuda bastante nos momentos de terapia também, pois me faz levar alguns assuntos que merecem ser discutidos de forma mais aprofundada.

Se você tem medo de começar a escrever um diário e parecer que está em um retorno à adolescência, não precisa se preocupar com isso: a nossa escrita tem a ver com o que estamos vivenciando no momento, nossas experiências e nosso repertório e, assim, o que escrevemos reflete o nosso estado presente. Então, sim, vai ser bem diferente do “querido diário”, como a Carol Figueiredo fala em seu podcast, e um lugar único para expressar o que você quiser.

Para começar a escrever um diário depois de adulta — e conseguir manter a constância durante a rotina — é importante ter em mente alguns pontos que fazem toda a diferença nessa jornada, que são:

julgue menos e escreva mais

Achar que não vale a pena escrever um diário por ser algo que remete à adolescência ou infância já é um tipo de julgamento que pode aparecer como barreira para exercitar essa prática. Então em vez de pensar assim, de forma autocrítica, é importante abrir espaço para essa experiência e se permitir escrever com mais fluidez e menos preocupação, afinal, o que você vai escrever não precisa ser visto por outras pessoas.

O diário é um espaço só seu, pode ser escrito do jeito que você preferir, sem importar a caligrafia, o tempo dedicado a esse momento, o número de páginas ou as temáticas abordadas. Em uma aula que assisti um dia desses sobre a importância de escrever diários, da escritora Ana Holanda, vi que um dos maiores medos é não saber por onde começar, mas a autora deu a dica de escrever sobre o que está ao redor: o cheiro que vem da cozinha, o barulho que pode ser ouvido pela janela, os hábitos de quem mora com você, tudo pode ser um motivo para um texto.

deixe o texto fluir

É válido pensar o diário como um momento para fluir pensamentos e emoções, sem regras: a escrita diária não deve ser vista como uma demanda a mais, mas como uma hora de ser livre para colocar no papel (ou em outra mídia que preferir) o que vier à cabeça e ao coração. É uma conversa íntima com você mesma, e não precisa ser perfeita.

Austin Kleon fala que gosta de manter a escrita em diário, porque o ajuda a prestar mais atenção em sua vida, contribui para a sua terrível memória e é um ótimo lugar para ter ideias “ruins”, pelo fato de ser um espaço privado para os seus próprios pensamentos: você é livre para escrever ou rabiscar o que quiser.

tente exercitar a autocompaixão

Às vezes, quando falamos com o nosso interior, podemos ter bastante rigidez ou autocrítica. Eu já deixei de escrever durante um tempo por achar que tudo que eu escrevia era bobo ou sem importância em vez de olhar as coisas como parte de uma jornada para aprender mais e, assim, continuar a nadar tentar. Não é fácil evitar a comparação com outras pessoas ou olhar com mais gentileza para os nosso erros e até para o que conquistamos também, mas vale exercitar isso na escrita.

Então quando for escrever, que tal perceber o jeito que você fala consigo e colocar em prática a autocompaixão? Essa pequena atitude, aos poucos, é transformadora e pode deixar marcas positivas para além do papel. Há um episódio do podcast Autoconsciente (que é um dos que mais amo ouvir, e recomendo muito), que fala sobre a importância de perdoar a si mesmo e ter mais gentileza com seus erros para ter mais saúde mental e física ao longo da vida.

palavra-coração-infinito

releia o que você escreveu

Não é preciso revisar nem reler logo após escrever, mas depois de uma semana ou um mês, é muito legal revisitar as páginas anteriores. Fazer isso é uma ótima forma de lembrar o que já passou, refletir sobre como você estava, aprender mais sobre si e sobre a sua escrita e, dessa forma, ter novas perspectivas para as próximas páginas.

E aí, que tal começar hoje a registrar mais a sua vida? Separar um caderninho ou alguma ferramenta digital é um meio de ter um incentivo extra para colocar isso em prática. Espero que a escrita diária consiga levar seus pensamentos e suas emoções para ampliar o seu autoconhecimento e explorar outras possibilidades, assim como tem feito comigo.

Obrigada por me acompanhar nesse post. Até mais!

o corpo pede um pouco mais de pausa

o corpo pede um pouco mais de pausa

Acordou, sentiu uma estranheza em seus braços. Correu para o espelho e viu manchas vermelhas, revelando uma pele irritada de um jeito que nunca havia visto antes. As manchas se espalharam do pescoço às pernas, percorrendo todo o corpo e gerando diversos incômodos. O que poderia ter causado aquilo? Não lembrava de ter ingerido nada diferente no dia anterior, e não entendeu o porquê daquela crise alérgica tão grave e repentina. Precisou tirar um dia de descanso, quase à força, longe das telas e da necessidade de estar online, e só então melhorou.

Esse trecho que você acabou de ler retrata um dos dias em que meu corpo adoeceu pela falta de descanso mental durante a pandemia. Até eu perceber que estava esgotada e, com isso, foram dias me cobrando e culpando por achar que não estava fazendo o suficiente.

Em meio a todo o caos que estamos vivendo, ainda há também quem ache que é preciso fazer sempre mais para que fique tudo bem, porque “hashtag vai dar certo“: mas não está tudo bem e já deu muito errado.

Não é questão de ser pessimista ou algo do tipo, mas de tentar lembrar que não precisamos ser úteis o tempo todo, que é preciso descansar um pouco, sim, e também viver períodos de tristeza, de luto, angústia. O melhor que podemos fazer a cada dia não vai ser sempre o mesmo, porque, como a @flordemim sempre lembra, a gente não está sempre no nosso 100% (nem precisa se forçar a estar).

Assim como na canção de Lenine, é preciso ter calma, se recusar, fazer hora e ir na valsa. Por que não? Nesse período de quarentena, em que evitei sair de casa ao máximo que pude, senti os dias escorrendo pelos dedos enquanto fiz muitos esforços para continuar em movimento, mas o que eu ainda não sabia é que repousar também é uma forma de se movimentar.

Entre terapias extras, enxaquecas, vontade de sumir no meio do mato, noites de muito sono e outras de insônia, dias de baixa concentração para qualquer atividade, crises de rinite e a crescente necessidade de simplesmente fazer nada, eu tenho aprendido algumas coisas e decidi compartilhar por aqui.

observe o que o seu corpo tem falado

Por incrível que pareça, em muitos momentos, o nosso corpo sabe reconhecer mais o que precisamos do que imaginamos. O perigo é que a gente quase sempre acha que é algo bobo, que pode passar com a ajuda de algum remedinho e vamos que vamos, deixando de perceber sinais importantes para a saúde mental, física e emocional ao longo da rotina, o que pode gerar uma série de problemas.

tente entender, com gentileza, as suas mudanças internas

Apesar de a gente observar com mais facilidade o que muda no visual das pessoas, o cabelo, as roupas, o modo de se expressar, entre outros, olhar para dentro é uma parte importante na busca de se conhecer mais e, assim, descobrir novas formas de ser mais gentil com as transformações da vida. Tudo tem passado rápido demais, eu sei, a gente já está em agosto de 2021 (e parece que ontem era março de 2020), e ao mesmo tempo tanta coisa já mudou.

Já são quase dois anos de distanciamento social e diversas outras preocupações a mais para lidar, então tente se cobrar menos e se permita observar, com mais carinho, as mudanças de rotas até aqui.

é preciso saber como se planejar, mas lidar com imprevistos também

Já faz um tempo que eu tenho o costume de planejar a semana, os meses, enfim, usando planner ou bujo, o que tem me ajudado muito. Porém, deixei de fazer isso em vários momentos da pandemia, por ansiedade ou por achar que não valia nada continuar se planejando (o mundo já tá acabando mesmo, né?).

Entretanto, é essencial encontrar o equilíbrio entre o que pode ser planejado e o que pode acontecer para além do nosso controle. Tenho engatinhado bastante nesse aprendizado, mas já percebi muita diferença de lá pra cá.

o que funciona para outra pessoa pode não servir pra você (e vice-versa)

Por mais clichê que seja falar que cada pessoa tem o seu próprio ritmo, essa é uma verdade super válida de lembrar a qualquer hora (principalmente naquelas em que você tenta se comparar a quem tem uma vida completamente diferente da sua).

Eu passei muito tempo tentando encontrar métodos de me concentrar ou me manter mais motivada, o que proporcionou momentos bem estressantes e confusos, com base nas experiências de outras pessoas, até perceber que era preciso achar o que realmente funciona pra mim — e entender também que o que dá certo hoje pode não dar mais amanhã.

separe um tempo para não fazer nada

Se você também já passou por aquele ciclo de estar com muito cansaço e não conseguir fazer nada e, depois, se culpar por estar sem fazer nada, eu recomendo tirar um tempinho para ficar realmente sem fazer nada. Sim, por mais que a gente relute em achar que fazer algo produtivo é mais importante, é preciso lembrar que cuidar de você também já é fazer alguma coisa (e a sua saúde agradece).

Além de tirar um tempo só pra descansar, as atividades fora das telas foram as que mais me ajudaram a manter a calma e desopilar a cabeça (entre elas, as principais foram ler, escrever, brincar com meus gatinhos, cuidar de plantas, cozinhar receitas novas — o mundo acabando e eu indo fazer bolo mais uma vez — dançar do jeito que der, meditar e tirar fotos do cotidiano com câmeras analógicas). Quais práticas estão fazendo parte do seu dia a dia nos momentos de descanso e lazer?

Ter um tempo de qualidade para si é algo transformador para a mente e o corpo, e é algo que pode ser trabalhado aos poucos. No meu caso, tive que começar a aprender por forças maiores (gif do menino que ri e chora ao mesmo tempo), mas viver é estar em constante aprendizado mesmo e fico feliz por estar dando os primeiros passos nesse caminho de olhar com mais gentileza para o que preciso e também por ter partilhado um pouco sobre isso por aqui.

Vou continuar nessa busca de dar mais atenção à saúde mental e física, então provavelmente devo compartilhar outros aprendizados depois. Agora me fala de você, como tem sido a sua rotina e como tem lidado com o cansaço ou o estresse desses dias? Que tal separar um tempinho para descansar nessa semana?

Espero que você aproveite melhor os seus próximos momentos livres. Obrigada por ter me acompanhado nesse post!

Até mais!

uma outra forma de falar sobre o que se é

Você já reparou que, depois de entrar na fase adulta, falar sobre quem se é torna-se um desafio, e nossas apresentações normalmente são preenchidas pelo que fazemos nos setores profissionais ou acadêmicos? É como se não houvesse outro meio de gerar uma rápida identificação do que somos às pessoas que ainda não conhecemos (a não ser uma espécie de mini entrevista de onde você estudou, no que trabalha e o que pensa em fazer nos próximos anos). E toda aquela conversa de “o que você quer ser quando crescer?”, que a gente escuta quando criança, pode gerar outras reflexões a partir disso.

No finalzinho do ano passado, tive uma grata surpresa: no curso online de escrita afetiva, da Aliás Editora, a escritora e professora AnnaK propôs um exercício em que eu e outras mulheres devíamos pensar em novas formas de nos apresentar, em poucos minutos, sem falar sobre nossas profissões. Já imaginou falar sobre você, focando no que tem valor mais afetivo e não no que você atua na rotina de trabalho e/ou estudo? Olha, posso dizer que vale muito a pena tentar fazer esse exercício.

Escrever sobre quem a gente é, sem utilizar as famigeradas credenciais, é uma ótima ferramenta de autoconhecimento: nunca é tarde para entender mais sobre as nossas motivações internas e ir em busca de aprender a só ser, como diz a música maravilhosa de Gilberto Gil.

Em um dos primeiros empregos CLT que trabalhei, eu gostava de usar o horário de almoço pra caminhar logo após a refeição. Não tinha um destino certo em mente, só a vontade de aproveitar aquele tempinho livre pra andar pela rua e espairecer a mente, e essa é uma das maiores saudades que carrego, porque gosto muito de caminhar assim, observando o movimento das pessoas, dos carros e das bicicletas, os gatinhos passeando entre as plantas da praça, as conversas na calçada, o cachorro em frente à padaria e a pressa de atravessar as avenidas. Era uma pausa que me encantava no dia, porque naquela hora eu não era uma analista de conteúdo de uma agência de marketing digital. Eu era uma caminhante, sem nenhuma necessidade de ser algo para além disso. E é isso, a gente nunca é algo definitivo, a gente só está.

Durante esse período de quarentena, eu tenho sentido muita falta desses momentos de caminhar ao ar livre. Dia vai e vem, em uma montanha-russa de emoções, pude observar coisas que aquecem o meu coração mesmo em meio às circunstâncias oscilantes ao longo dos meses, e então resolvi transformá-las em pequenos registros para compartilhar com você. <3 Aqui vão alguns deles.

fotos com meu amor, Rodrigo, para sempre olhar nas horas de estudo e trabalho
Bento tirando a sonequinha da beleza à tarde (posso passar horas admirando meus gatinhos)
Tulipa vendo eu tirar mais fotos: “de novo, mãe? me deixa dormir” kkkkkk
calendário inspirador, da Gabri Neara, pra inspirar e organizar o dia a dia
aprender a cuidar de plantinhas também ensina a gente a se amar mais

Então, para além do trabalho freelancer com produção de conteúdo e o mestrado em comunicação na UFC, eu sou mãe de plantas e de gatinhos (Bento e Tulipa), estou sempre com itens de papelaria por perto, amo aprender coisas novas, sempre tive paixão por experimentações artísticas, gosto muito de testar receitas na cozinha e fazer comida para quem amo, faço terapia em busca de me conhecer mais, estou tentando aprender passinhos de dança com patins, faço playlists para diferentes momentos/sensações, sempre estou lendo algo e amo tirar um tempinho pra ficar de bobeira vendo série ou filme.

E você, me conta um pouquinho da sua vida para além do crachá ou do currículo? É importante fazer a tentativa de falar sobre você para além do que os outros já veem no cotidiano. Vou amar ter a chance de trocar ideias com você por aqui. <3 Até logo, e se cuida.