A criança interior: o que é e como se conectar com a sua?
autocuidado

A criança interior: o que é e como se conectar com a sua?

out, 12 2022

A criança interior representa uma parte íntima de nossa mente, relacionada a pensamentos, sensações e comportamentos que carregamos desde a infância. De acordo com a psicologia analítica, esse aspecto é a nossa verdadeira essência e, por isso, é importante descobrir meios de se conectar com ela para ter uma vida mais plena.

uma foto minha sentada no jardim da minha avó
no jardim da minha avó Mazé <3

Você costuma lembrar da sua infância no dia a dia? Muitas vezes, algumas pessoas reprimem essas lembranças e evitam até olhar fotografias do passado, devido a memórias dolorosas e traumáticas, mas é preciso pensar em formas de acolher a sua criança interior. Ao aceitar quem você já foi, é possível criar um lar de proteção, segurança e amor dentro de si.

Provavelmente você já sentiu que não sabe se está no caminho “certo” ou que precisa encontrar um lugar onde é aceito e amado, mas antes de procurar esse espaço nos outros, vale conhecer mais quem você já foi e entender a sua bagagem para trabalhar com ela da melhor forma.

O que carregamos da infância envolve uma série de influências que atuam tanto de forma consciente quanto inconsciente no nosso jeito de perceber as coisas, agir, pensar e sentir ao longo da vida. Neste post, vou falar um pouco sobre a criança interior, o que é e como se conectar com a sua. Boa leitura!

A criança interior: o que é?

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, falar sobre criança não é necessariamente abordar questões de infantilidade, imaturidade ou irresponsabilidade, e essas crenças muitas vezes fazem com que nos distanciemos da figura da infância.

Como podemos ver no vídeo Encontre a sua criança interior, no programa Jout Jout de saia, da GNT, a vida adulta tende a mudar nossa visão sobre as coisas, fazendo com que a gente passe a ver a rotina de forma mais séria e relacionando o lugar da criança a algo que deve ser deixado de lado. Porém, será que o tom da nossa vida deve envolver apenas o aspecto racional e responsável?

Quando as responsabilidades começam a aumentar, é comum ver a criança começar a desaparecer aos poucos. Entretanto, como a Jout Jout gnt nos lembra: “somos uma multidão, somos muitas”. Há muito mais dentro de nós do que apenas as demandas diárias e as tarefas a serem cumpridas de acordo com a nossa idade, nossa profissão e nossos estudos.

A criança interior se refere ao lugar de sentir, de apreciar as coisas ao redor, experimentar outras possibilidades, descobrir coisas novas e da vontade de continuar aprendendo.

No momento de escolher algo ou tomar uma decisão, você pode não somente pensar na razão e nas recomendações mais plausíveis do que seria o “correto”, mas também na sua intuição, no que seu coração está sentindo, no que pode deixar você mais feliz, no que pode gerar orgulho para quem você foi na infância e no que faz bem a você hoje.

mandando um oi pra câmera ♥

Por que é tão importante acolher sua criança interior?

A criança interior é uma potência que existe em nós para nos conectar com o encanto, a beleza, a criatividade, a brincadeira, a experimentação, as cores e a cura. De acordo com a obra do psicoterapeuta Carl Gustav Jung, a criança interior é uma instância sagrada dentro de nós, a nossa criança divina.

Essa parte inconsciente da mente, que carrega os padrões experimentados na infância, pode se manifestar na vida adulta, influenciando nossas emoções e nossos relacionamentos familiares e afetivos. Normalmente, as 5 dores da infância que podem continuar nos machucando na fase adulta, caso não trabalhemos esse aspecto, são: o medo do abandono, o medo da rejeição, a humilhação, a falta de confiança e a injustiça. Ao se conectar com a nossa criança interna, podemos encontrar meios de lidar com essas angústias.

Em um primeiro momento, o nosso ego pode dizer que é bobagem tentar acolher a criança interior, e isso faz parte do processo, mas vale a pena continuar e observar outros pensamentos e sentimentos que emergem a partir da tentativa de se aproximar das lembranças de sua infância.

Todos nós temos feridas emocionais que podem ser apresentadas com o passar do tempo, em diversas situações, e saber como se conectar com sua criança interior pode ajudar você a entender como ser saudável mudando pensamentos, crenças limitantes e expandindo a perspectiva de seus aprendizados e memórias. Alguns dos outros benefícios de acolher e se conectar com a nossa criança interior, são:

  • melhorias na autoestima;
  • desenvolvimento da nossa maturidade emocional;
  • mais confiança para lidar com situações difíceis;
  • percepção mais realista sobre as emoções e o próprio corpo;
  • expansão da visão sobre o que acontece ao redor;
  • aumento da flexibilidade para enfrentar mudanças;
  • amor próprio e generosidade.

Talvez você não saiba como sua infância afeta seus relacionamentos, mas ao iniciar a conexão com sua criança, muitas emoções e percepções podem começar a aparecer também.

É válido ressaltar que acolher a criança interior não é interpretar as sensações da mesma forma pela qual você as compreendia na infância, pois agora você já possui mais recursos e experiências para lidar com elas, mas cuidar do que você sentiu para curar feridas emocionais, proteger sua história e fortalecer quem você é hoje.

andando de bike pela casa :’)

Como superar traumas de infância?

No livro Acolhendo sua criança interior, escrito por Stefanie Stahl e publicado pela Editora Sextante, a autora traz uma abordagem inovadora para curar as feridas da infância. A autora fala que, segundo Sigmund Freud, a personalidade humana é dividida nas seguintes instâncias:

  • “id”, chamado também de criança interior ou ego criança pela psicologia moderna;
  • “ego”, conhecido por ego adulto;
  • e “superego”, uma instância moral que habita o adulto e também é chamado de “ego pai” ou “crítico interior”.

Quando não nos permitimos tentar algo novo, já desqualificando nossas habilidades, por exemplo, estamos nos dirigindo a nós no modo pai. Outras abordagens terapêuticas também dividem as três principais instâncias — ego criança, ego adulto e ego pai — em outras menores, como: a criança interior ferida, a alegre e a zangada, e pais interiores castigadores ou benevolentes, existindo uma série de subpersonalidades que é chamada de “equipe interior” pelo psicólogo alemão Schulz von Thun. Qualquer semelhança com Divertidamente, da Pixar, não deve ser mera coincidência, né? 🙂

Happy Inside Out GIF by Disney Pixar - Find & Share on GIPHY
fonte: Giphy

Criança-sol e criança-sombra

No livro de Stefanie Stahl, em vez dos termos “criança interior alegre” e “criança interior ferida”, são utilizados os conceitos de “criança-sol” e “criança-sombra”, criados pela psicóloga Julia Tomuschat. Esses dois termos representam as subdivisões da parte da nossa personalidade, que representa o nosso inconsciente e a nossa criança interior, e podem se revelar de forma inconsciente até o momento em que começamos a trabalhar nesse processo.

Enquanto a criança-sombra abarca todas as crenças negativas e os sentimentos opressivos, como tristeza, medo, desamparo e raiva, representando a parte da autoestima que foi ferida e se encontra fragilizada, a criança-sol reúne as influências e os sentimentos positivos, como espontaneidade, curiosidade, entrega, vitalidade e alegria.

De acordo com Stefanie, para reconfortar a criança-sombra que existe em nós e, com isso, abrir mais espaço para a criança-sol, precisamos aprender a entrar de forma consciente no modo adulto, tranquilo e benevolente para entender as feridas que nossa criança-sombra carrega e reagir de forma adequada e amorosa aos seus impulsos. Para isso, ela sugere algumas estratégias de reflexão, entre elas:

  • evite a postura fundamentalmente desconfiada e pessimista;
  • elogie as pessoas ao seu redor;
  • tente relativizar o seu perfeccionismo e reflita sobre seus níveis de exigência;
  • concentre sua atenção no presente;
  • permita-se ter momentos de diversão e prazer;
  • cuide mais de si e assuma a responsabilidade pelo seu bem-estar;
  • respeite a sua voz, seus gostos, seus desejos e aprendizados;
  • aprenda a falar “não” e recuar quando for preciso;
  • exercite a empatia e a escuta ativa;
  • perceba suas próximas necessidades e reconheça seus limites.
uma das minhas épocas favoritas do ano sempre foi o natal

Como se conectar com nossa criança interior?

Agora que já sabemos a importância de entender mais sobre quem fomos na infância para, assim, termos a capacidade de entender nossas emoções e acolher nossa criança interior, é importante encontrar formas de nos conectarmos com essa parte da nossa essência.

Acredito que isso possa acontecer de várias formas, a depender dos gostos pessoais de cada pessoa, mas resolvi trazer alguns meios que normalmente me ajudam a me aproximar da criança que habita em mim. Vamos lá!

Veja álbuns de fotos da sua infância

Uma das formas mais práticas que me ajuda a trilhar no caminho de conexão com minha criança interior é olhando nos olhos dela, por meio de fotografias, vídeos e conversas com a minha família sobre os registros visuais da infância.

Ao rever fotografias do nosso passado, sempre encontramos algo novo que não havíamos percebido antes, expandindo nossas percepções e fortalecendo a nossa história.

Escreva uma carta para sua criança interior

Eu escrevi na newsletter Mensagem na Garrafa, a importância de escrever uma carta pra criança que habita em você, como uma forma simples e sensível de conversar abertamente com quem você foi e com quem está se tornando.

A escrita de cartas para si é um ótimo trabalho de escrita e autoconhecimento, que deve ser feito sem julgamentos, para dar voz ao que você está sentindo e organizar seus pensamentos. Que tal pegar alguns materiais de papelaria e escrever, colocando um pouco de cor e delicadeza, para sua criança?

Foto do meu álbum de infância para falar sobre a importância da conexão com a criança interior. Na imagem, estou rabiscando com papéis e canetinhas.
rabiscando com papéis e canetinhas em janeiro de 1997.

Separe um tempo para se divertir

Muitas crianças gostam de brincar com jogos de tabuleiro, mas há diversas outras brincadeiras que podem ser colocadas nas suas horas livres durante a semana para resgatar o aspecto de brincar e ampliar os momentos de diversão e lazer.

O que você gostava de fazer para se divertir na infância? Eu gostava muito de me rodear de papéis, canetinhas e pincéis para rabiscar formas, letras e cores, por exemplo.

Então sei que sentar para escrever e desenhar, além de ser uma atividade que me faz muito bem, me ajuda a me reconectar com minha criança interior. Vale listar algumas atividades que relembram a sua infância e tentar aplicá-las sempre que possível, tenho certeza que vai fazer muito bem a você.

O trabalho de conexão com a nossa criança interior é um processo que demanda atenção e cuidado, mas também envolve prazer, amor e acolhimento. É fundamental ter acompanhamento terapêutico para descobrir mais sobre si, preservar a saúde mental e física, vivenciar experiências mais ricas e aprofundadas, ampliar seu autoconhecimento e lidar melhor com as emoções que podem surgir.

Espero que você tenha gostado do post! Obrigada por me acompanhar aqui. Você também pode me encontrar na newsletter, no Instagram e no LinkedIn. Um beijo e até logo!

Deixe seu Comentário