Copo Vazio, de Natalia Timerman
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Copo Vazio, de Natalia Timerman

nov, 16 2022

No livro Copo Vazio (São Paulo: Todavia, 1ª ed, 2021), primeiro romance de Natalia Timerman, a autora traz muito a questão do abandono, da ausência, da vulnerabilidade, do ghosting e das experiências provocadas pelos relacionamentos afetivos atuais, onde pode haver não apenas desentendimentos de comunicação, mas também a falta de respostas.

A narrativa é contada pelo ponto de vista de uma mulher que começa a relembrar uma parte do seu passado de forma fragmentada e não-linear.

Dentro dessas memórias, alguns desarranjos e contradições são apresentados, fazendo com que a leitura se torne ainda mais fluida na busca de entender o que de fato aconteceu e, ao mesmo tempo, perceber que alguns elementos são tão subjetivos que podem ser mesclados entre a realidade e a ficção com o passar do tempo.

O romance Copo Vazio tem uma leitura extremamente fluida, e nos apresenta três personagens: Mirela, Pedro e Rui. Ao longo da história, é possível perceber que Natália Timerman utiliza um narrador em terceira pessoa, trabalhando o tipo de narrador observador que parece ser bastante próximo de Mirela, a protagonista, o que nos aproxima dela também, por meio de seus pensamentos e suas sensações.

Assim como Mirela não consegue acessar Pedro, o narrador também não sabe muito sobre ele e, assim, podemos nos enxergar a partir da perspectiva de Mirela, que busca respostas quase inalcançáveis por meio de um cenário embaçado de dúvidas, angústias e lembranças rompidas.

A dor do ghosting em Copo Vazio

Ghosting ou “fantasma” é o nome dado às situações em que uma pessoa se relaciona com outra, e esta simplesmente desaparece sem dar explicações.

Ao longo da narrativa do livro Copo Vazio, conhecemos o momento em que Mirela se apaixona por Pedro, mas a narração começa a cair de um abismo e leva quem a lê nessa queda profunda, em que vemos as emoções da protagonista e, por meio de uma narração íntima, nos identificamos com ela.

Por falar sobre memórias, relacionamentos e a falta de respostas concretas sobre uma busca cheia de sensações emocionais e físicas, o narrador não conta o que aconteceu de forma linear, mas bastante fragmentada enquanto a protagonista segue o caminho de superar o que aconteceu com ela.

A mescla entre realidade e ficção

Devido à intensidade das emoções abordadas no livro e à intimidade da protagonista ser trabalhada de forma tão profunda, mostrando suas vulnerabilidades, muitas pessoas acreditaram que o livro Copo Vazio fosse autobiográfico. Sobre isso, Natalia Timerman Uol fala:

Copo Vazio é um livro de ficção, sobre uma personagem que não existe. Eu acho graça que já tenha sido chamada de Mirela algumas vezes, em debates, lives, conversas sobre o livro; acho graça também que o que eu inicialmente quis esconder, que havia de fato levado um perdido, tenha saído em manchetes através da palavra autobiográfica. Sei que essa demanda chega à literatura e à arte, na procura pelo que é “baseado em fatos reais”. Mas o que não é, de alguma forma, baseado em fatos reais? Quando é que uma escritora não está falando de si mesma, ainda que invente palavra por palavra, gesto por gesto de sua personagem?

Temporalidade da narrativa de Copo Vazio

Os títulos dos capítulos de Copo Vazio são uma tentativa de organizar a temporalidade da narrativa: “Depois”, “hoje”, “antes”, “foi assim”, “antes (ou uma noite)”.

O romance é iniciado no depois, indicando ao leitor que o tempo será representado por meio de movimentos entre o passado e presente. A voz do narrador também se assemelha a Jano Bifronte, em que uma cabeça observa o ontem enquanto a outra cabeça olha para o futuro, em um entre-lugar.

Nesse sentido, por meio do caminho percorrido por Mirela e pelo narrador da história, a leitura é sempre levada de um lado para cá, com referências musicais, diálogos rápidos, mensagens de celular e a ideia de efemeridade da comunicação nas redes sociais.

O narrador observador, em terceira pessoa, nos conta toda a história de forma íntima, mas deixa espaço também para que possamos interpretar a narrativa a nosso modo, o que causa algumas dúvidas, por exemplo: o filho é de Mirela com Rui ou com Pedro?

Narrador em terceira pessoa

Questionamentos que remetem à incerteza se Capitu traiu ou não Bentinho são muito comuns em livros onde o narrador observa tudo, mas não expõe mais do que a percepção dos cenários gerais, prezando por uma certa neutralidade diante dos fatos apresentados, por mais próximo que seja esse olhar.

No trecho de Copo Vazio, a seguir, podemos ver um exemplo de como esse narrador mostra que está observado o que acontece com Mirela, mas também induz o leitor a se questionar sobre o pode haver por trás das inseguranças da protagonista e do desaparecimento de Pedro:

“Todos os dias, quase todas as horas, Mirela entra na página de Pedro no Facebook atrás de atualizações, de notícias da existência dele. Será que está bem? Será que está vivo? Ele não sumiria assim se algo muito grave não tivesse acontecido. Na tarde de quinta, três dias após o início da verificação quase constante, ele compartilha um artigo sobre os meios de comunicação de massa e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Mirela curte. Sai da internet, se concentra no trabalho. Ou tenta. Seu corpo está rígido, por detrás dos olhos e da garganta há uma memória salgada de choro”.

Podemos notar então que o narrador, em terceira pessoa, é principalmente observador, mas em alguns momentos ele também é, de certa forma, onisciente intruso, por se misturar aos pensamentos e indagações de Mirela, nos levando a fazer perguntas semelhantes a ele e adentrar pelas inseguranças da protagonista e da narrativa de Copo Vazio. O narrador não fica apenas na superfície, mas mostra olhos e ouvidos muito atentos a ponto de se aprofundar nas sensações e nos pensamentos da personagem.

Eu amei conhecer a escrita de Natalia Timerman e acabei lendo o livro todo em uma noite pela fluidez do texto e pela vontade de saber o que ia acontecer. A história é muito forte por expor uma situação que qualquer pessoa está sujeita a passar, e vale a pena separar um tempo para ler e conhecer.

4 comentários
  1. Jeniffer
    nov, 16 2022

    Adorei a resenha!
    Eu tenho esse livro no Kindle. Já coloquei na coleção próximas leituras porque fiquei com vontade de ler após seu post.
    Bjs
    http://www.jeniffergeraldine.com

    • Priscilla
      Respondeu Jeniffer
      nov, 17 2022

      ai, que legal saber disso, Jeniffer! obrigada <3 recomendo ler em um momento mais tranquilo sem ser antes de dormir pra não ter insônia auhauhau acho que você vai amar o livro! um beijo 🫀🌹

  2. Tay
    nov, 18 2022

    Nossa, estou doida para ler esse livro. Parece ser uma leitura bem imersiva apesar dos temas darem uma abertura pro gatilho rs
    https://www.dearlytay.com.br/

    • Priscilla
      Respondeu Tay
      nov, 18 2022

      Tay, você falou tudo! tem gatilho e é realmente muito imersivo o livro, tanto que só consegui parar de ler quando terminei toda a história. recomendo a leitura e agradeço pela visita por aqui! <3 um beijo

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