observar a cidade e deixar que ela também te veja

observar a cidade e deixar que ela também te veja

Naquela tarde nublada, o tempo parecia dizer que caminhar era a melhor escolha a ser feita. Sim, colocar uma roupa leve, sair de casa e não pensar muito sobre os afazeres ou as obrigações da semana, pelo menos por algumas horas.

Coloquei o sapato mais confortável que eu tenho, pensando em explorar um território que há meses não podia contemplar: a cidade em que vivo. Olha, aquele lugar é novo? Caramba, eu nunca tinha prestado atenção naquela esquina. Aqui não tinha um banquinho?

Foi então que, na rua, as avistei e percebi que elas haviam decidido o mesmo que eu para aquele dia. Estavam simplesmente andando por aí, conversando, deixando a cidade transbordar por entre os olhos e os passos.

Fazia tempo que eu não separava alguns minutos pra observar a cidade e prestar atenção na rua. Entre os prédios e as árvores, as inconstâncias e rachaduras do tempo-espaço, ainda havia tanto para ser visto abaixo das nuvens vestidas de chuva. Levar as pernas para passear é como reunir o afeto do olhar, em busca de registrar encanto, com a curiosidade dos pés.

Por meio da realidade, também é possível escrever outras narrativas, e é quando saímos de casa que podemos apreciar os detalhes do acaso. Eu sempre me surpreendo com o quanto sair para caminhar é algo que pode mudar a nossa perspectiva sobre o dia, o presente e o que achamos conhecer. É feito um rito de passagem para o desconhecido que mora logo ali e, às vezes, não conseguimos perceber.

Eu gosto de pensar que sair de casa para caminhar e observar a cidade se parece com o momento de tomar banho em um rio. Após mergulhar, sempre há algo que muda dentro de nós. E isso nos faz ver a vida pela fluidez de outras águas também.

Qual foi a última vez que você se permitiu sair de casa sem um compromisso específico para além do desejo de ver a cidade em que mora e, assim, observar os arredores? Fazer isso, além de gerar mais leveza para os dias, é uma ótima forma de plantar sementes de imaginação e criatividade pelo caminho.

o que a vulnerabilidade tem a ver com a criatividade?

o que a vulnerabilidade tem a ver com a criatividade?

Apesar de o universo criativo normalmente ser retratado como um lugar colorido, leve e divertido, a vida real está longe de seguir essa representação.

No dia a dia, é comum enfrentar medos, imprevistos, preocupações e incertezas em diversas áreas e, ao tentar omitir essas emoções ou fugir de momentos difíceis a qualquer custo, também podemos nos fechar para as coisas boas que podem surgir. Afinal, viver é experimentar uma porção de coisas diferentes e, quanto mais você se entrega a isso, mais chances você ganha de expandir os significados que dá à própria vida.

Assim como a vida é cheia altos e baixos, a criatividade pode ir e vir: é importante deixá-la livre e aproveitar esse fluxo, pois não é sempre que a inspiração vai estar disponível, mas vale a pena continuar tentando.

vulnerabilidade e criatividade andam juntas

Por meio da coragem de se permitir tentar, você pode descobrir coisas novas, entender os seus propósitos, obter insights valiosos e lidar com os dois lados da moeda de ter uma vida plena e mais criativa. Tá, mas o que isso tem a ver com a vulnerabilidade? Tudo, como nos lembra a Brené Brown em A coragem de ser imperfeito:

Vulnerabilidade não é conhecer vitória ou derrota; é compreender a necessidade de ambas, é se envolver, se entregar por inteiro. Vulnerabilidade não é fraqueza; e a incerteza, os riscos e a exposição emocional que enfrentamos todos os dias não são opcionais. Nossa única escolha tem a ver com o compromisso. A vontade de  assumir os riscos e de se comprometer com a nossa vulnerabilidade determina o alcance de nossa coragem e a clareza de nosso propósito.

Ao entender que ser vulnerável não é ser fraco, mas ter a coragem de enfrentar os desafios que surgem e, assim, continuar a sua jornada, você passa a se conhecer mais, explorando os seus defeitos e as suas qualidades, reconhecendo a sua força interna, sendo quem você realmente é e se aproximando de experiências que podem transformar a sua vida.

o caminho se faz ao caminhar

Criar ou produzir algo normalmente mexe com o medo de errar, a insegurança de receber críticas ou a angústia por não fazer algo “perfeito”, mas é preciso lembrar que a perfeição é algo extremamente subjetivo e inalcançável na realidade humana, e o melhor que você pode fazer para ter um caminho criativo é continuar caminhando.

Eu lembro de uma aula da disciplina de criação publicitária, quando estava na graduação, em que a professora perguntou quem não se achava criativo, e apenas uma pessoa levantou a mão. A verdade é que a criatividade não pertence apenas a algumas pessoas, e é possível perceber isso até nas pequenas coisas da rotina: a inspiração para criar algo não remete apenas à realização de obras de arte, mas também a buscar soluções para enfrentar desafios, contar histórias e encontrar formas de facilitar a vida.

A Elizabeth Gilbert, autora de Grande Magia – Vida criativa sem medo, afirma que:

Se você está vivo, é uma pessoa criativa. Eu, você e todo mundo que conhecemos descendemos de milhares de  gerações de criadores. Decoradores, reparadores, contadores de histórias, dançarinos, exploradores, rabequistas,  percussionistas, construtores, cultivadores, solucionadores de problemas e embelezadores — esses são nossos  ancestrais comuns.

Por meio da leitura dos livros A coragem de ser imperfeito e Grande Magia, pude aprender que a vergonha, a insegurança e o perfeccionismo são sentimentos que podemos tentar nos livrar sempre que aparecerem para não deixar de fazer o que gostamos nem abandonar os nossos sonhos, vínculos e propósitos.

De acordo com a Brené Brown, nós podemos substituir a dúvida sobre o que os outros vão pensar pela generosidade, aceitação e pelo amor próprio, acreditando no nosso valor e nos permitindo continuar experimentando, aprendendo e tentando.

é por aí que a luz entra

Perceber as suas dificuldades e encarar a vulnerabilidade não é expor tudo o que você tem passado nem se fechar atrás de “escudos”, mas reconhecer o que você carrega de bom, as suas conquistas e, principalmente, ter um olhar mais gentil com as suas falhas e a sua trajetória.

Vale observar os passos que você já deu até então e pensar em formas ainda melhores de viver e se conectar tanto com os seus propósitos quanto com as outras pessoas. Brené Brown confirma que:

Quando estamos vulneráveis é que nascem o amor, a aceitação, a alegria, a coragem, a empatia, a criatividade, a  confiança e a autenticidade. Se desejamos uma clareza maior em nossos objetivos ou uma vida espiritual mais  significativa, a vulnerabilidade com certeza é o caminho. Sei que é difícil acreditar nisso, sobretudo quando  passamos tanto tempo achando que vulnerabilidade e fraqueza são sinônimos, mas é a pura verdade. Vulnerabilidade é incerteza, risco e exposição emocional.

O que você tem deixado de criar para se aproximar de si e dos outros por causa do medo de não corresponder a algumas expectativas? Refletir sobre o que tem atrapalhado a sua jornada pode ser o primeiro passo para alcançar uma vida mais plena, com aquele quentinho no coração que você merece.

Esse post estava na parte de rascunhos há uns dois meses, mas criei coragem de escrever e publicar ele hoje por aqui, e isso é resultado de uma série de reflexões que tive após ler esses dois livros. ❤️ Espero ter ajudado você a refletir sobre a importância da vulnerabilidade para ser mais gentil consigo e praticar a sua criatividade também.

Se cuida, e até mais!

pequeno mapa do tempo

pequeno mapa do tempo

Depois de uma breve pausa, em que meu corpo me obrigou a parar um pouco por questões de saúde, tenho tentado reencontrar o que pode trazer mais sentido à minha rotina e, assim, eu resolvi mexer em algumas gavetas de memórias.

Às vezes, é comum ter dúvidas sobre quem somos ou o que mais gostamos de fazer: se perder faz parte da vida de quem gosta de explorar, descobrir coisas novas e criar. Nessa parte do caminho, nada melhor que um mapa pra orientar os próximos passos.

Por mais que você possa ter deixado de lado alguns dos seus hobbies, o que faz seu coração bater com mais alegria ou o que pode trazer mais leveza aos seus dias, provavelmente você lembra do que gostava de fazer quando era criança.

Quais hábitos a sua mini versão costumava colocar em prática no dia a dia? São aquelas coisinhas que a gente vai praticando diariamente que nos levam pra outros caminhos em nossa história, mesmo que isso às vezes passe despercebido.

O que faz parte da nossa essência não é somente o que demonstramos ser hoje nem o que almejamos para o futuro, mas principalmente a construção de tudo o que poderíamos ser, que começou a ser realizada lá na infância.

Tem dia que o medo de não conseguir fazer algo nos paralisa, mas podemos ter um pequeno mapa do tempo, nos guiando para onde ir, se olharmos para a nossa criança interior.

de volta ao quintal

Nos últimos dias da semana, tiveram vários dias de chuva, aqui em Fortaleza, e olhar esses pingos d’água dançando com o vento me leva de volta ao quintal de uma casa que marcou a minha infância.

Aquele quintal era o maior espaço da casa. Por lá, eu e meu sobrinho podíamos correr e tomar banho de chuva como se não houvesse mais nada acontecendo no mundo. Era como congelar o tempo.

Naquela época, a produtividade do dia era medida pelo número de risadas, tipos de brincadeiras, quantidade de passos dados, guloseimas compartilhadas, desenhos assistidos e novos aprendizados.

Certa vez, um amigo me disse que cada pessoa era como uma casa e que, ao se apresentar para outras, ela poderia decidir quais cômodos mostraria de acordo com a conexão. Penso que as coisas que remetem a quem realmente somos se encontram em nosso quintal.

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.

Manoel de Barros

viagem no tempo

Longe de ser apenas uma forma de ter nostalgia ao visitar o nosso passado, olhar com carinho para a criança que fomos é traçar percursos possíveis de sonhar, ser quem somos, viver e continuar aprendendo mais sobre o que pode servir como um potente combustível interior.

Já imaginou explorar um mapa do seu passado-presente-futuro e, com isso, descobrir mais sobre você e o que faz sentido estar na sua vida? Então vale pensar em quais coisas mais despertavam a sua curiosidade, o que fazia você passar horas com foco, o que te dava mais energia ou mais cansaço, e o que fazia o dia ser mais especial.

Aqueles sonhos ou habilidades que foram esquecidos, com o passar do tempo, podem reaparecer. Caso você não consiga lembrar de muita coisa, também pode perguntar para quem convivia com você.

Você tem uma gaveta, caixa ou pasta de memórias? Te convido a separar um tempo para revisitar esse lugar. Pequenos objetos podem contar histórias ao longo dos anos, mudando algumas perspectivas e nos ajudando a encontrar outras rotas com mais coragem.

Por aqui pretendo fazer mais caixas de recordações para guardar além dos registros fotográficos e, assim, desenhar possíveis trajetos para o futuro. E aí, que tal organizar o seu próprio pequeno mapa do tempo?

Obrigada por me acompanhar. Até logo mais!

estrela azul, uma leitura de “Só garotos”, de Patti Smith

estrela azul, uma leitura de “Só garotos”, de Patti Smith

Será que é possível viver de arte e respirar como se tudo fosse um sonho prestes a se revelar? Ser artista é criar algo que ninguém pode ver? À procura de si e do universo que ainda queria conhecer, Patti Smith nos presenteou com a escrita poética e honesta de Só garotos.

Nessa obra, ela relatou o seu encontro com Robert Mapplethorpe, com quem dividiu a vida, o teto, a ternura, os sonhos, a voz e tudo o que carregava de mais profundo em seu interior.

Comecei a ler o livro por ter sido uma proposta de leitura do mês do clube #LCentreestantes e, logo nas primeiras páginas, me apaixonei completamente. Sem dúvidas, ele se tornou um dos meus livros preferidos e, por isso, pretendo ler mais outras vezes.

Ainda não havia lido nada de Patti e foi uma experiência tão transformadora que fiquei me perguntando o porquê de ter demorado tanto, mas acredito que aconteceu exatamente no tempo certo.

a estrela azul

A escrita da obra autobiográfica foi uma promessa que Patti fez a Robert, pouco antes dele morrer. Diante de suas memórias afetivas, a artista reuniu imagens, retratos, poesias, referências de vários artistas incríveis, músicas e bilhetes realmente inspiradores para além do espaço-tempo.

Com isso, ela conseguiu contar a história de sua vida, do seu encontro e relacionamento com Robert – que a salvou de várias formas, do seu amor pela arte e dos percalços que percorreu para conquistar os seus sonhos, dos meados dos anos 60 e 70 em Nova York e, especialmente, da estrela azul:

“Saímos para caminhar à noite. Às vezes conseguíamos enxergar Vênus acima de nós. Era a estrela dos pastores e a estrela do amor. Robert a chamara de nossa estrela azul. Ele costumava fazer o t de Robert como uma estrela, assinando em azul para eu me lembrar.”

Só Garotos, de Patti Smith. Companhia das Letras, 2010.

só garotos

A escrita de Patti é tão linda, que é até desafiador falar sobre o livro. Por meio da leitura, é possível se encantar com a visão de mundo da autora e o universo que ela compartilhou com Robert, as transformações que eles passaram e suas lutas internas e externas.

É emocionante e inspirador perceber tudo o que eles queriam ser e viver, e o quanto eles foram vários ao longo de sua jornada pessoal, afetiva e artística.

Cada capítulo dessa obra, pra mim, foi como uma vela que você acende para perfumar e aquecer todo o espaço, deixando aquela sensação boa de nostalgia, conexão, afeto e harmonia.

“Em um dia de veranico vestimos nossas roupas favoritas, eu com minha sandália beatnik e uma velha echarpe, e Robert com suas amadas miçangas e o colete de ovelha. Pegamos o metrô até a West Fourth Street e passamos a tarde na Washington Square. Tomamos café de uma garrafa térmica, vendo grupos de turistas, gente chapada e cantores de folk. Revolucionários agitados distribuíam panfletos contra a guerra. Enxadristas atraíam uma multidão à parte. Todos coexistiam naquele zum-zum de diatribes verbais, bongôs e cachorros latindo.
Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho.
‘Oh tire uma foto deles’, disse a mulher para o marido distraído, ‘acho que são artistas’.
‘Ora, vamos logo’, ele deu de ombros. ‘São só garotos‘.”

Só Garotos, de Patti Smith. Companhia das Letras, 2010.

Patti e Robert

Entre tantas palavras imagéticas, a leitura nos leva a diversos cenários: bares, trabalhos, exposições e, principalmente, ao Hotel Chelsea (que é praticamente uma personagem da história, e é um ponto de virada na vida de Patti e Robert).

Além do processo de se encontrar e expor a sua voz no universo artístico, a obra também revela a caminhada deles no início de sua vida adulta, abordando diversas temáticas, entre elas: solidão, liberdade, medo, incerteza, paixão, amizade, fé, sonhos, amor, música, fotografia, arte, literatura, rock, fama, propósito, dor e vida.

A conexão que tive com o livro foi tão grande que, ao perceber que já estava pertinho das últimas páginas, deixei ele de lado por um tempo ao lado da minha cama, como quem quisesse adiar a despedida por mais uns dias.

Eu me emocionei do início ao fim e me sinto extremamente grata por ter lido essa obra de Patti, em que muitas memórias foram retiradas do diário que ela escrevia com atenção e sensibilidade.

Se conselho valer pra alguma coisa, te aconselho a ler Só Garotos e se encantar com os detalhes preciosos que ele carrega em cada palavra e registro.

Obrigada por me acompanhar aqui! Abraços e até a próxima 💖

uma nova perspectiva

uma nova perspectiva

Hoje o dia amanheceu chuvoso aqui em Fortaleza, no Ceará, deixando um clima bem gostoso logo pela manhã. Meus gatinhos, Bento e Tulipa, também aproveitaram para descansar e olhar as gotinhas de chuva pela janela.

Amo observar a forma como eles contemplam os detalhes do tempo de uma forma diferente a cada dia, e resolvi fotografar para começar esse 2022 com a ideia de ter mais memórias visuais na rotina, sem esperar por momentos de comemoração ou datas especiais.

As semanas que antecederam o ano que chegou, e principalmente o último dia de 2021, foram cheios de imprevistos que me drenaram bastante, e infelizmente eu não tenho nenhum registro da noite de “rei leão” aqui em casa, mas graças a Deus ficou tudo bem e consegui aproveitar o jantar com minha família.

Por mais que a gente planeje alguns detalhes, sempre podem ocorrer situações inesperadas e o que resta é a tentativa de se adaptar às mudanças, se conectar com o que mais importa, acolher os nossos sentimentos, entender o que não podemos mudar ao redor e refletir sobre o que pode ser transformado em nosso interior, sendo mais gentis conosco e com os nossos processos. Como diz a música Ninguém vive por mim, de Sérgio Sampaio, “o pior dos temporais aduba o jardim”.

Apesar de gostar muito de planejar o ano, os meses e as semanas, um dos aprendizados da junção de 2020 e 2021 é que não há como ter controle sobre coisa alguma e, na tentativa de reduzir a ansiedade, é preciso largar a mão do perfeccionismo e fazer o melhor que eu posso com as condições que tenho atualmente. Pretendo exercitar isso com mais afinco nesse ano para tirar algumas ideias do papel, e sou muito grata por ter esse espaço tão querido para compartilhar minhas coisas por aqui.

Desejo mais leveza e coragem para seguir o fluxo desse ano de 2022. Que possamos seguir com nossas lutas sem esquecer dos nossos sonhos e momentos de respiro. Um feliz ano novo, com novas histórias e dias melhores!

Fica bem! Abraço ❤

menos busca por resultados, mais encontro com o caminho

menos busca por resultados, mais encontro com o caminho

Se você já deixou de fazer algo por medo de dar errado ou não se sentiu 100% para comemorar algum processo seu, porque tinha a ideia de que esse momento de celebração pertenceria somente à conclusão ou conquista de alguma situação, bem-vinda ao clube. Por muitas vezes, apesar de amar a criatividade e a soma de processos que ela gera, é comum ter receio de enfrentar algo incerto, com aquele pensamento de pensar no “e depois?”.

Isso tem muito a ver também com o medo da folha em branco. Até escrever o primeiro parágrafo, a primeira página, normalmente, vem aquele pensamento de que a mente está bloqueada, de que não vai dar certo, de que você não vai conseguir mesmo e, então, nem vale a pena tentar. E isso pode acontecer com qualquer pessoa, mas é preciso olhar com mais gentileza para o processo em vez de buscar apenas pelos resultados.

Apesar de a vida ter uma linha do tempo com um ponto de partida e chegada, qualquer outra certeza que possamos esboçar para além disso é algo ilusório. A gente não pode ter controle sobre tudo, e imagina que chato se pudesse? Então é válido exercitar o nosso olhar para as incertezas de uma forma mais leve (o que normalmente esquecemos de fazer quando nos envolvemos muito com as tarefas e as circunstâncias do dia a dia).

Essa pintura foi muito especial e gratificante pra mim, pois a fiz apenas com o intuito de colorir mais uma página do caderno, usando pastel oleoso e guache, sem me preocupar sobre como iria ficar. Já fazia um tempo que eu não aproveitava o processo de algo de uma forma tão tranquila, e foi divertido me permitir apenas testar os materiais que eu já tinha para aproveitar uma tarde de sábado. Foi um momento de descanso de qualidade também, pois acabei esquecendo de tudo ao redor e respirando com mais leveza por alguns minutos.

Valorize os seus processos

Por mais desafiadores que sejam alguns trajetos, você deve se permitir tentar, errar e admirar a vista. Até porque só é possível saber se a paisagem agrada e se você consegue ir até lá, se tiver a coragem de dar os seus primeiros passos, entendendo a sua vulnerabilidade, aceitando que pode falhar e que o caminho também merece ser contemplado para além dos acertos.

Alguns percursos são cheios de placas sinalizando atalhos ou melhores opções, enquanto outros seguem mais o estilo de “o caminho se aprende caminhando”, mas nem todos vão mostrar as respostas que você procura. Talvez você acabe encontrando mais perguntas ou uma mudança de rota, quem sabe? A jornada percorrida já é um resultado também.

Quando entrei para o processo de seleção do mestrado, o qual estou cursando agora, senti o medo de não dar certo em diversos momentos. O processo foi de agosto a dezembro de 2019, dividido em várias etapas. A cada vez que eu via meu nome na parte de pessoas aprovadas, em vez de comemorar que passei em mais uma, já focava na próxima etapa. Eu não me permiti parabenizar os meus esforços no meio do caminho por pensar que ainda era preciso enfrentar mais etapas até a “linha de chegada”, como se estivesse em uma maratona.

Em alguns momentos a gente não vai ter forças para reconhecer os nossos esforços e realizações. É totalmente normal passar por situações em que o cansaço fala mais alto do que a vontade de apreciar a vista, mas vale ter mais empatia consigo, separar um tempinho para si e acolher seus sentimentos em vez de carregar mais cobranças.

Confie mais em você do que no seu perfeccionismo

Às vezes a gente coloca tanta pressão para encontrar resultados perfeitos ou fazer algo da melhor forma, que negligenciamos quem somos, a nossa dedicação e a vontade de tentar, enxergando somente o que ainda nem aconteceu e as opiniões de outras pessoas em vez de aproveitar o momento presente, nossos aprendizados, os lugares já visitados e as bagagens que carregamos até aqui.

Como a Yasmin, da Flor de Mim, nos ensina sabiamente, “o perfeito não existe”, então em vez de deixar de fazer algo que faz bem a você pelo medo de não sair como imaginava nem gerar os resultados almejados, se permita tentar.

O Neil Gaiman também já deu um conselho valioso sobre isso: “A perfeição é como perseguir o horizonte. Continue andando.” Utilize seu repertório, seus hobbies, seus conhecimentos, seus sonhos, algo que faz bem a você, para se desenvolver e escrever a sua própria história, e não se diminuir ou se pressionar tanto em busca do inalcançável.

Afinal, o que é a perfeição que você busca? O que é considerado perfeito para alguns, não o é para outros, e sempre foi assim. Então vale tentar não usar mais os medidores de “perfeito” de outras pessoas para, assim, traçar os seus próximos passos da forma que você conseguir caminhar e se sentir bem, combinado?

O caminho se faz caminhando

A sua estratégia não precisa ser vinculada a um “bom” resultado, pode ser simplesmente tentar, fazer algo. Talvez você encontre os bons resultados que você deseja, sim, e até alívio em descobrir que o perfeccionismo não é necessário no meio do caminho, mas isso é uma consequência de caminhar, e não mais o principal objetivo. Pensar dessa forma talvez ajude naqueles momentos em que nos sentimentos travados por medos, vergonhas ou preocupações no geral.

Criar alguma coisa, dar os primeiros passos em um novo projeto ou ir em busca de realizar aqueles sonhos que trazemos conosco, muitas vezes, é um percurso desafiador por envolver partes tão nossas, mas é importante pensar que fazer o nosso melhor não é seguir um padrão idealizado por outros, mas dar o melhor que podemos nas condições atuais, e que o caminho se faz assim. Caminhando mesmo, porque é uma trilha, e não uma reta final.

Austin Kleon nos lembra da importância de fazer “arte ruim” ou “arte feia”: “Bom” pode ser uma palavra sufocante, uma palavra que faz você hesitar e olhar para uma página em branco e se questionar e jogar coisas no lixo. O importante é mexer as mãos e deixar que as imagens venham. Se é bom ou ruim, não vem ao caso. Apenas faça algo.” Nada é definitivo, então por que não tentar se divertir com as possibilidades que são desenhadas?

Fazer coisas sem tantas cobranças ou julgamentos é essencial para manter a criatividade (e ter mais leveza entre um desafio e outro). Uma das partes mais emocionantes da jornada é quando a gente começa a entender a importância de se libertar dos medidores de sucesso dos outros para sermos quem somos e não sentirmos mais a necessidade de nos explicar caso haja alguma mudança no caminho. Espero que você consiga se permitir tentar. Por aqui, também sigo caminhando. Coragem e força para nós!

Abraços, e fica bem.

entre o vivido e o imaginado, uma leitura de “é sempre a hora da nossa morte amém”

entre o vivido e o imaginado, uma leitura de “é sempre a hora da nossa morte amém”

O que está guardado na sua memória ainda faria algum sentido se você fosse falar para outras pessoas que não estavam presentes nos momentos mais importantes da sua vida?

Ao participar do clube do livro @chicasedicas, tive a oportunidade de ler pela primeira vez uma obra da Mariana Salomão Carrara, o “é sempre a hora da nossa morte amém” (e, com isso, já fiquei com muita vontade de ler também o seu primeiro romance, “se deus me chamar não vou“).

“Agora e na hora de nossa morte amém, que hora era essa, a hora de nossa morte, como se fôssemos morrer em apenas um momento, estávamos morrendo ali já mesmo enquanto eles rezavam, com o detalhe de que por sorte neste preciso momento o corpo venceu, agora venceu de novo, e venceu agora também, até que de repente não”.

É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara. Editora NÓS, 2021.

Por meio de malabarismos com as palavras, metáforas maravilhosas, histórias que ficam entre memória e ficção, e passagens que causam reflexões sobre família, amizade, relacionamento amoroso, saúde, mãe-filha e até sobre o país em que vivemos, a ditadura e as incoerências, e as coisas cotidianas, o livro é cheio de capítulos curtos e ao mesmo tempo densos de ler.

A leitura é divertida e tão fluida que não há a necessidade de uma pontuação tão dentro dos padrões da língua portuguesa, funcionando como uma conversa mais íntima, mas o que fica nas entrelinhas pode fazer você voltar duas ou mais vezes para conferir, reler, ou pensar mais um pouco.

Entre neuroses e lembranças, que se mesclam ao medo da morte, à vontade de viver e amar e aos complementos da imaginação, o livro de Mariana conversa bastante sobre o que levamos da vida e, principalmente, sobre a finitude desta e a efemeridade dos nossos afetos.

“Não sei muito sobre o que me tornei, mas é certo que sou uma pessoa que tem sonhos de vida enquadráveis em pequenas imagens precisas, eu seria totalmente feliz se alcançasse ao menos um dos meus quadros de perfeição, mas sempre algum detalhe me escapa”.

Cada capítulo constrói cenários cheios de imagens, que ficam em nossa mente mesmo depois da leitura: o que é verdade ou mentira dá lugar a pensamentos mais profundos que vão para além das palavras escritas.

Os tantos universos possíveis entre passado, presente e futuro da Aurora e das Camilas são como um horizonte que vai se desenhando de novo, e de novo, a cada nova história contada, como uma ilha de edição (já dizia Waly Salomão).

Além de frases muito marcantes, a história une sensibilidade, memória, imaginação e afeto de uma forma tão única que você pode se pegar rindo, chorando, se identificando com a autora e as personagens e tendo vontade de conversar sobre a leitura com alguém.

Apesar de que uma das únicas certezas que temos quando estamos vivos é que, em algum momento, será a hora da nossa morte, falar sobre esse assunto normalmente gera uma sensação de insegurança, né?

Afinal, “todo o corpo fica permanentemente combatendo nossa tendência a morrer, a vida em si é que é surpreendente”, mas achei muito interessante a forma como a autora criou tantas narrativas, de um jeito até engraçado em algumas situações, sobre algo que é tão difícil de falar.

Separar um tempo para ler, participar de um clube de leitura e conversar sobre narrativas, autoras e personagens, tem sido uma das melhores partes da minha rotina nos últimos meses.

Agora queria perguntar uma coisa: o que você tem lido por aí? Espero que você consiga encontrar espaços e outras perspectivas de pensar sobre a vida, os seus afetos e a sua finitude por meio das palavras. Até logo!

pequenezas do dia a dia

pequenezas do dia a dia

Aqui onde moro com a minha família é possível ver bem apenas o nascer do sol, preenchendo as madrugadas de insônia com o lembrete de que um novo dia está chegando com outras cores e perspectivas.

Porém, perto do final do ano, o entardecer resolve se revelar mais também: pequenos vestígios do pôr do sol invadem as frestas da janela da cozinha, pintando o piso e os azulejos da parede todos de dourado por breves minutos. Tudo ganha uma outra cor, a pele, o fogão, a louça, e é quase como se virasse um novo lugar por um instante.

Um espaço-tempo que se despede quase da mesma forma que surge. De repente. Captar os desenhos de luz e sombra, exercitando um olhar mais atento para o presente, é abraçar a efemeridade das pequenezas que não podem passar despercebidas, como uma oração ao tempo. João Guimarães Rosa já dizia, “Deus está nos detalhes”.

Usar a câmera analógica tem me ajudado bastante a dar mais importância às pequenezas do cotidiano, por funcionar no caminho inverso à pressa das horas, e meu coração sempre bate mais feliz quando começo um novo filme (e especialmente quando o envio para revelar os registros).

Essas imagens foram feitas na Olympus Trip 35, com o filme P&B Praça do Ferreira, do @lab8oito, e a revelação e digitalização também foram feitas nesse mesmo laboratório.

Quais são as pequenas que têm deixado a sua rotina mais bonita? Quando a gente se permite ver para além do enxergar, novos detalhes e cores se mostram. Obrigada por me acompanhar por aqui!

Até logo, e se cuida.

legado de afetos

legado de afetos

o gosto por ouvir, contar, ler e escrever histórias,

a atenção por cada detalhe da música que está tocando,

a contemplação das cores do céu,

a alegria pelo simples virar da tapioca na panela,

a habilidade e o amor por trabalhar com linhas e cores,

o coração cheio de luz e compaixão,

os ouvidos atentos para ouvir o que está ao redor,

a paixão por plantas e o cuidado com a hora do plantio e da colheita,

o cheiro de ervas e flores,

a gratidão por degustar comidas saborosas com quem a gente ama,

a calma ao andar pela rua,

a importância dada às pequenas coisas do dia a dia,

a força para enfrentar as diversas situações ds vida,

o amor por chás naturais, medicinais e quentinhos,

a risada fácil que contagia todo o corpo,

a simplicidade de tecer histórias e afetos,

e o carinho no olhar e no abraço

são algumas das coisas que você ensinou a mim e a quem lhe conheceu, vó Mazé.

a sua partida foi há 18 anos, mas a sua presença continua florescendo e dando frutos por aqui.

obrigada por tudo. ❤️

Do que você não abre mão?

Do que você não abre mão?

Certa vez, me fizeram essa pergunta em uma entrevista para um trabalho – “do que você não abre mão?” – e, por um momento, fiquei sem saber o que responder, então perguntei em qual sentido era aquela pergunta. O profissional do RH foi bem enfático e perguntou novamente o que eu realmente não abriria mão. Sem pestanejar, eu falei que não abriria mão da minha saúde. Expliquei que, no início da minha vida profissional, eu costumava ir além do meu limite para entregar as demandas sempre o mais rápido e da melhor forma que eu pudesse e que isso, a longo prazo, desgastou muito a minha saúde – física e mental – a ponto de agora eu ter a consciência de que por mais que possa haver outras coisas muito importantes, eu preciso priorizar a minha saúde, porque sem ela não há vida pessoal nem muito menos profissional.

Tanto as enxaquecas “fora de hora” quanto a sensação de cansaço que não passa com algumas horinhas de descanso (e até a famigerada síndrome de impostora ou o temido burnout) são algumas das situações que estão muito ligadas ao fato de acharmos que não precisamos respeitar o nosso ritmo quando o assunto é trabalho, por ser algo tido como obrigação e necessidade. E, tudo bem, trabalho é isso mesmo, mas onde fica todo o resto? Ao entender que a nossa vida também precisa de atenção e demanda uma série de cuidados, passamos a encarar os nossos afazeres profissionais como uma parte dela, não mais representando a parte principal ou a mais importante.

Fiquei em dúvida se essa foi a melhor resposta que eu poderia dar a um profissional de RH? Com certeza. Pensei em mil outras coisas consideradas “melhores” que eu poderia ter falado em vez de dizer que priorizava a minha saúde, mas qual diferença isso iria fazer, no final das contas, se aquele trabalho nem iria pensar em priorizá-la?

Quando passei a trabalhar de forma autônoma, levei um bom tempo para entender isso, mas a ficha finalmente caiu: se a gente não olhar pra nossa saúde e pra nossa vida com mais carinho, ninguém vai. Por mais clichê que essa frase seja, ela é o mais puro suquinho da verdade (normalmente clichês são assim). Depois que parei pra pensar em todo o processo que foi pra eu entender que cuidar da minha saúde e priorizar isso, é uma resposta justa, sim, acabei me sentindo orgulhosa por perceber o que tenho conseguido aprender com minhas experiências.

Se tem algo que não deve trazer mal estar ou culpa é cuidar de nós mesmos e procurarmos sempre o melhor para a nossa vida. Falar sobre isso me lembrou de uma cena do filme Inferninho (2018), dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, em que há um discurso sobre olhar com mais carinho para nós mesmos e buscar outras possibilidades de existência em nossa jornada:

“Tu tem que fazer alguma coisa. Tu tem que tomar alguma atitude. Passou a vida inteira esperando, esperando. […] Era só tu abrir o portão e… Mas tu não, tu fica aqui, se maldizendo da vida e botando a culpa em tudo e em todo mundo… a vida é tua, Deusimar. Então trata bem da vida. Faz assim ó, carinho na vida, não maltrata a vida não.”

Eu sei que cuidar da saúde é um processo trabalhoso, definitivamente não é linear nem acontece da noite pro dia: ele é construído aos pouquinhos, mas se a gente organizar direitinho, dá pra ter hábitos saudáveis de uma forma mais leve e sem se cobrar tanto ao longo da rotina. É o que tenho tentado – aos trancos e barrancos – por aqui. O checkup médico, as sessões de terapia e o seu eu mais velho agradecem.

Se cuida, e fica bem. Até logo!