Do que você não abre mão?

Certa vez, me fizeram essa pergunta em uma entrevista para um trabalho – “do que você não abre mão?” – e, por um momento, fiquei sem saber o que responder, então perguntei em qual sentido era aquela pergunta. O profissional do RH foi bem enfático e perguntou novamente o que eu realmente não abriria mão. Sem pestanejar, eu falei que não abriria mão da minha saúde. Expliquei que, no início da minha vida profissional, eu costumava ir além do meu limite para entregar as demandas sempre o mais rápido e da melhor forma que eu pudesse e que isso, a longo prazo, desgastou muito a minha saúde – física e mental – a ponto de agora eu ter a consciência de que por mais que possa haver outras coisas muito importantes, eu preciso priorizar a minha saúde, porque sem ela não há vida pessoal nem muito menos profissional.

Tanto as enxaquecas “fora de hora” quanto a sensação de cansaço que não passa com algumas horinhas de descanso (e até a famigerada síndrome de impostora ou o temido burnout) são algumas das situações que estão muito ligadas ao fato de acharmos que não precisamos respeitar o nosso ritmo quando o assunto é trabalho, por ser algo tido como obrigação e necessidade. E, tudo bem, trabalho é isso mesmo, mas onde fica todo o resto? Ao entender que a nossa vida também precisa de atenção e demanda uma série de cuidados, passamos a encarar os nossos afazeres profissionais como uma parte dela, não mais representando a parte principal ou a mais importante.

Fiquei em dúvida se essa foi a melhor resposta que eu poderia dar a um profissional de RH? Com certeza. Pensei em mil outras coisas consideradas “melhores” que eu poderia ter falado em vez de dizer que priorizava a minha saúde, mas qual diferença isso iria fazer, no final das contas, se aquele trabalho nem iria pensar em priorizá-la?

Quando passei a trabalhar de forma autônoma, levei um bom tempo para entender isso, mas a ficha finalmente caiu: se a gente não olhar pra nossa saúde e pra nossa vida com mais carinho, ninguém vai. Por mais clichê que essa frase seja, ela é o mais puro suquinho da verdade (normalmente clichês são assim). Depois que parei pra pensar em todo o processo que foi pra eu entender que cuidar da minha saúde e priorizar isso, é uma resposta justa, sim, acabei me sentindo orgulhosa por perceber o que tenho conseguido aprender com minhas experiências.

Se tem algo que não deve trazer mal estar ou culpa é cuidar de nós mesmos e procurarmos sempre o melhor para a nossa vida. Falar sobre isso me lembrou de uma cena do filme Inferninho (2018), dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, em que há um discurso sobre olhar com mais carinho para nós mesmos e buscar outras possibilidades de existência em nossa jornada:

“Tu tem que fazer alguma coisa. Tu tem que tomar alguma atitude. Passou a vida inteira esperando, esperando. […] Era só tu abrir o portão e… Mas tu não, tu fica aqui, se maldizendo da vida e botando a culpa em tudo e em todo mundo… a vida é tua, Deusimar. Então trata bem da vida. Faz assim ó, carinho na vida, não maltrata a vida não.”

Eu sei que cuidar da saúde é um processo trabalhoso, definitivamente não é linear nem acontece da noite pro dia: ele é construído aos pouquinhos, mas se a gente organizar direitinho, dá pra ter hábitos saudáveis de uma forma mais leve e sem se cobrar tanto ao longo da rotina. É o que tenho tentado – aos trancos e barrancos – por aqui. O checkup médico, as sessões de terapia e o seu eu mais velho agradecem.

Se cuida, e fica bem. Até logo!

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