a busca pela identidade no entre-lugar, uma leitura de Persépolis

Quem aí já se sentiu não pertencente a algum grupo, em busca de mais autoconhecimento, com crise de identidade ou até frustrado por não conseguir se encaixar em algum lugar? Persépolis, uma obra extremamente sensível e honesta de Marjane Satrapi fala, entre tantas temáticas, especialmente sobre a dificuldade de se encontrar em meio a lacunas de espaço, tempo, memórias, política e cultura. Esse livro é uma história em quadrinhos autobiográfica da autora e ilustradora, abordando momentos desde a sua infância à vida adulta, durante e após a Revolução Islâmica.

Ler essa HQ foi uma oportunidade de acessar uma mistura de emoções a cada página e, principalmente, de perceber o quão pouco é o meu conhecimento sobre o Irã, a sua história e a vida por lá. Apesar da realidade contada pelo livro ser diferente em vários aspectos da que é mais conhecida no Brasil, é possível observar diversas semelhanças no que diz respeito a injustiças contra mulheres, autoritarismo no governo, extremismo religioso, opressão e falta de boas perspectivas para a educação, entre outros.

Ao longo da história, comecei a me sentir bastante assustada no sentido de pensar como tanta coisa ruim pode acontecer daquela forma e, ao mesmo tempo, pensar que aquilo aconteceu há alguns anos atrás, mas que ainda ocorre em diversas camadas, como se o medo de tanto regresso e opressão não pudesse passar.

O que Marjane experienciou da infância à vida adulta, sua mãe e sua avó passaram durante a vida inteira, assim como hoje diversas outras mulheres continuam vivenciando. Por mais que algumas lembranças sejam vestidas de traumas e dores, não deixar o passado se apagar ou ser negado é um meio de não imergir, fortalecer a história individual e coletiva e, dessa forma, expandir as possibilidades de construir um cenário diferente.

Em 2020, a obra completou 20 anos de existência, sendo a primeira publicação em quadrinhos feita por uma mulher, que já vendeu milhões de cópias ao redor do mundo, mas não pôde ser publicada nem vendida oficialmente no país em que Marjane nasceu. Por meio das experiências relatadas ao longo de sua autobiografia em graphic novel, é possível se inspirar com a coragem que ela teve de partilhá-las e perceber o convite que ela faz a outras mulheres também contarem suas histórias.

Além de acompanhar a história do Irã em meio a bombardeios, guerras, mortes e injustiças, o seu livro também fala sobre a história da sua vida: da sua criação por uma família politizada de esquerda que tinha muito conhecimento, dos sábios conselhos da sua avó sempre presente, das contradições que ela encontrava no dia a dia, das perdas e ausências, dos momentos de diversão em meio ao caos, das lacunas e angústias geradas por viver em busca de um lugar onde pudesse se encontrar e, principalmente, da sua formação como mulher ao longo dos anos.

Entre diversas temáticas, como autoconhecimento, amadurecimento, família, drogas, relacionamentos amorosos, cultura, guerra, medo, política, amizade, Marjane fala muito sobre superação, força e a liberdade de pensar, de ir e vir, de ser quem você é e de compartilhar sua história com mais outras pessoas.

Fazer a leitura de Persépolis após a eleição de 2018 no Brasil e depois de quase dois anos de pandemia, e encontrar tantas semelhanças com o nosso país (e perceber que muitos diálogos do livro ainda são extremamente válidos até hoje), e ver também que o Talibã tomou novamente o poder no Afeganistão, colocando ainda mais sombras sobre os direitos de diversas mulheres, pra mim, é mais um motivo de refletir que a nossa vida é sempre cercada por política e que entender a história e a memória de quem já passou por essas situações é um caminho para esboçar novas possibilidades, como Marji nos inspira.

Até logo! 🌹

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